Ciência
Xenotransplante: Adaptações e modificações nos órgãos suínos para salvar vidas humanas
O xenotransplante, processo de transferência de órgãos entre diferentes espécies, tem despertado crescente interesse na comunidade científica, representando uma potencial solução para a escassez de órgãos humanos disponíveis para transplante. No entanto, diversos desafios ainda cercam essa prática, que está em constante investigação e desenvolvimento.
Um dos principais obstáculos enfrentados no xenotransplante é a rejeição do órgão transplantado pelo sistema imunológico do receptor, além do risco de crescimento descontrolado do órgão e a possibilidade de transmissão de doenças. No entanto, avanços significativos têm sido feitos na superação dessas barreiras.
Atualmente, os porcos são os principais candidatos como doadores de órgãos para transplante em humanos. Rins e corações de suínos são os órgãos mais estudados para essa finalidade. No entanto, é necessário modificar geneticamente os porcos para evitar a rejeição do órgão pelo corpo humano.
Um marco recente nessa área ocorreu nesta quinta-feira (21), quando o médico brasileiro Leonardo Riella liderou o primeiro transplante de rim de porco para um paciente humano vivo em um hospital em Boston, nos EUA. Embora o prognóstico para o paciente não tenha sido divulgado, a técnica oferece esperança para indivíduos com insuficiência renal que não encontram doadores humanos compatíveis.
Outros avanços notáveis incluem a inativação de vírus e doenças nos porcos doadores por meio de técnicas de edição genética, como a “Crispr”, que permitem a modificação precisa do DNA para evitar a produção de enzimas e proteínas que causam rejeição em humanos. Além disso, os porcos usados para transplante são criados em ambientes estéreis para prevenir qualquer risco de contaminação.
Para evitar o crescimento exagerado do órgão transplantado, os porcos doadores são geneticamente modificados para resistir aos hormônios de crescimento humano. Os chamados “porcos de 10 genes” foram especificamente desenvolvidos para essa finalidade, com modificações genéticas que eliminam genes responsáveis pela rápida rejeição do órgão e inserem genes humanos para promover aceitação imunológica.
Ainda assim, permanece o desafio da rejeição do órgão transplantado pelo sistema imunológico do receptor. Para contornar esse problema, cientistas exploram a exclusão de moléculas específicas, como a açúcar alfa-Gal, que alertam o sistema imunológico sobre a presença de material estranho. Além disso, estudos estão em andamento para incorporar marcadores humanos nos órgãos suínos, a fim de enganar o sistema imunológico e minimizar a rejeição.
Embora o xenotransplante apresente promessas significativas no campo da medicina regenerativa, ainda há muito a ser explorado e aprimorado antes que se torne uma prática amplamente adotada. Os esforços contínuos de pesquisa e desenvolvimento são essenciais para superar os desafios restantes e tornar o xenotransplante uma opção viável e segura para salvar vidas humanas.
Fonte: G1