“Teacher, posso ir ao banhê?”
“Eu tô com fó!”
Essas frases são cada vez mais comuns entre crianças, e muitas mães e professores já estão exaustos: as crianças têm “comido” a última sílaba das palavras. Expressões como “preciso pegar o livro” viram “preciso pegar o lí”, deixando os adultos tentando adivinhar o que foi abreviado.
Essa “moda linguística” — popular entre crianças de 5 a 12 anos — virou a “trend do corte seco” no TikTok, onde familiares registram esse jeito de falar para postar nas redes. Alguns vídeos são de humor, outros compartilham a dificuldade de ouvir frases incompletas. Um desses vídeos já acumula mais de 3 milhões de visualizações.
Por que essa “febre” começou?
- Esse hábito parece influenciado por youtubers e tiktokers que usam cortes secos na edição de vídeos, deixando frases inacabadas. Excesso de telas pode agravar o comportamento.
- Cortar palavras compromete a clareza da comunicação, dificultando o diálogo.
- Para especialistas, o “corte seco” pode ser um obstáculo à alfabetização, principalmente para a formação de palavras e fluência na leitura.
- Em crianças que já dominam essas habilidades, o hábito pode até servir como estímulo cognitivo, desde que não seja usado o tempo todo.
De onde veio a moda do corte seco?
Clarice Kumaru, professora de inglês em uma escola particular em Canhotinho (PE), conta que são os alunos mais velhos, com acesso ao celular, que falam desse jeito, imitando vídeos infantis com cortes secos, que tornam as postagens mais dinâmicas. “Um aluno assíduo de ‘shortz’ no Youtube começa a imitar os influenciadores, e logo o hábito se espalha entre os amigos e até por toda a escola.”
O ‘corte seco’ é prejudicial?
Especialistas divergem: alguns veem a prática como uma brincadeira inofensiva, outros se preocupam com possíveis efeitos na alfabetização e comunicação.
- Excesso de telas e vida acelerada:
Se crianças estão adotando o jeito de falar de youtubers, isso pode indicar tempo excessivo em frente a telas. A fonoaudióloga Ângela Ribas, do Hospital Pequeno Príncipe, alerta que a exposição prolongada ao digital deve ser limitada, com mais espaço para estímulos presenciais e histórias narradas, por exemplo. Carol Campos, mãe de Pedro, vê a tendência como reflexo de uma geração acelerada, sempre buscando abreviar palavras.
- Perda de sentido nas frases:
O pesquisador Américo Amorim observa que, em português, a última sílaba muitas vezes define gênero, número ou tempo verbal. “A criança que não ouve a palavra completa pode ter a formação de vocabulário e compreensão textual prejudicadas.”
- Alfabetização ou estímulo cognitivo?:
Alguns especialistas temem que o “corte seco” comprometa a alfabetização, pois a criança pode entender que a forma “cortada” é a maneira certa de escrever. Cláudia Tricate, diretora do Colégio Magno, acredita que seja uma brincadeira inocente, comparando-a à antiga “língua do p”. Já a fonoaudióloga Ribas vê a prática como um exercício de manipulação de sons que pode até fortalecer habilidades cognitivas.
- Falta de acessibilidade:
Mayra Camargo, fonoaudióloga, lembra que a prática é prejudicial para crianças com distúrbios no processamento auditivo, que costumam se focar apenas nos últimos sons das palavras.
Fonte: G1