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Saiba como manter crianças e adolescentes longe das telas
No ano passado, Vivek Murthy, principal autoridade em saúde pública dos Estados Unidos, divulgou um relatório alertando que não há “evidências suficientes para determinar se as redes sociais são seguras para crianças e adolescentes”. Esse alerta é relevante e tem o potencial de impactar profundamente a forma como a sociedade lida com o tema, similar a outros alertas históricos, como aqueles sobre os riscos do tabagismo.
Poucos meses depois, um relatório da Unesco destacou os efeitos prejudiciais das telas no desempenho escolar. O estudo revelou que 25% dos países já implementaram restrições ao uso de celulares nas escolas.
Esses alertas fomentam um debate urgente sobre os riscos associados ao uso de telas e redes sociais por jovens e as medidas necessárias para limitar essa exposição.
Recentemente, os jornais do Grupo de Diários América (GDA), do qual O GLOBO faz parte, investigaram o tema, consultando especialistas, famílias, escolas e autoridades de 12 países latino-americanos. O resultado da investigação está apresentado a seguir:
Riscos
Daniel Becker, pediatra, sanitarista e professor do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que ainda há muito a descobrir sobre os efeitos do uso excessivo de telas, mas as pesquisas da última década já identificaram impactos nocivos significativos. Esses impactos incluem problemas cognitivos, perda de aprendizado, comportamentos alterados, sedentarismo, aumento da miopia, fraqueza muscular, sono perturbado e isolamento social. Além disso, os riscos são ampliados pela exposição a ideologias extremistas, publicidade prejudicial, comparação constante com os outros, dietas insustentáveis, fake news, golpes e conteúdos impróprios.
Uma revisão recente de 12 estudos realizados pelo University College of London revelou que adolescentes com dependência da internet apresentam alterações cerebrais e mudanças comportamentais associadas a capacidades intelectuais, coordenação física, saúde mental e desenvolvimento.
Miguel Vallejos Flores, especialista peruano em psicologia de vícios, explica que o vício em redes sociais e o uso prolongado de dispositivos eletrônicos podem alterar a química cerebral e causar dependência psicológica significativa, associada à busca por gratificação instantânea e interação social.
Abril María Arias Taveras, psicóloga clínica e ex-presidente do Colégio Dominicano de Psicólogos na República Dominicana, relatou casos de crianças que chegaram a perder o controle dos esfíncteres para não interromper o uso dos aparelhos. Ela observa problemas como agressividade, distúrbios do sono, déficit de atenção e deficiências visuais em decorrência do uso excessivo de dispositivos. Além disso, tratou de casos de crianças que reagiram com agressividade ao terem seus aparelhos retirados pelos familiares.
Além disso, surgem cada vez mais relatos sobre o uso inadequado de tecnologias por jovens, que muitas vezes não compreendem totalmente os impactos dessas ferramentas. Em 2023, no Peru, um grupo de estudantes do colégio St. George’s College usou inteligência artificial para transformar fotos e vídeos das redes sociais de colegas em material pornográfico, vendido por até 8 dólares.
Fonte: Jornal o Sul