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Por que subitamente tudo parece estar desmoronando para Israel

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Foto: Baz Ratner/AP

O que você faria?

Desde que o Hamas invadiu Israel em 7 de outubro e o Hezbollah atacou o país no dia seguinte, essa é a pergunta que o governo israelense tem repetidamente feito ao mundo.

O que seu país faria se terroristas cruzassem sua fronteira, matando, mutilando, sequestrando ou abusando sexualmente de centenas de seus cidadãos, e, logo depois, seus aliados disparassem foguetes contra outro ponto estratégico do seu território, levando milhares de civis ao desespero, com o apoio explícito do Irã?

É uma pergunta poderosa e pertinente, que muitas vezes os críticos de Israel preferem evitar. Mas a realidade é que o próprio governo israelense, sob a liderança de Binyamin Netanyahu, parece querer que acreditemos que a única resposta possível a essa pergunta é: invadir Gaza, eliminar todos os líderes e combatentes do Hamas, ignorando o impacto nas vidas civis, e em seguida, confrontar o Hezbollah no Líbano — tudo sem se preocupar em definir um plano de saída.

Segundo Thomas Friedman, colunista do The New York Times, ele disse desde o início que essa abordagem era uma armadilha. Uma armadilha na qual, infelizmente, o governo Biden não foi suficientemente firme para evitar que Israel caísse, nem para propor uma alternativa mais estratégica. Israel, de fato, enfrenta hoje uma ameaça existencial, e essa ameaça não vem apenas do Irã, mas também da própria coalizão de governo israelense.

É evidente que esta guerra faz parte de um plano maior do Irã para enfraquecer Israel, desestabilizar os aliados árabes dos Estados Unidos e diminuir a influência americana na região. A ideia central é usar proxies, como o Hamas e o Hezbollah, para infligir dano a Israel, enquanto o Irã permanece distante dos combates diretos, sacrificando palestinos e libaneses em seu lugar.

Além disso, a guerra também serve ao propósito de minar a tentativa diplomática da administração Biden de aproximar Israel, a Autoridade Palestina e a Arábia Saudita, sabotando qualquer esperança de uma coalizão de paz. A resposta iraniana foi acender um “anel de fogo” ao redor de Israel, utilizando milícias aliadas e armando grupos na Cisjordânia, tudo para pressionar o estado judeu.

Por mais que o governo Netanyahu tenha acertado no diagnóstico de que esta é uma guerra de sobrevivência, ele errou ao não adotar a única estratégia que poderia garantir uma chance de sucesso: uma abordagem metódica e planejada que inclua uma solução diplomática a longo prazo. Ao contrário, Netanyahu priorizou seus próprios interesses políticos e ideológicos, em detrimento da segurança de Israel.

A verdade é que Israel precisava de tempo, recursos, aliados e legitimidade internacional para combater as ameaças. O presidente Biden ofereceu uma proposta que incluía persuadir os aliados árabes a reformar a Autoridade Palestina e iniciar conversações com Israel sobre uma solução de dois estados. Essa abordagem, além de isolar o Hamas, teria pavimentado o caminho para a normalização das relações entre Israel e a Arábia Saudita, enfraquecendo o Irã e seus aliados.

No entanto, Netanyahu recusou essa proposta, pois isso exigiria romper com sua base política e formar uma coalizão mais moderada. Em vez disso, ele apostou em uma doutrina de combate em várias frentes, sem plano para o futuro. O resultado? Um Israel cada vez mais isolado, lutando uma guerra que, sem uma solução política, parece destinada a se prolongar indefinidamente.

Hoje, Israel se vê travando a guerra mais justa de sua história, em resposta a ataques brutais e não provocados. No entanto, paradoxalmente, a imagem de Israel no cenário internacional nunca esteve tão desgastada. O problema é que, ao conduzir uma guerra sem uma visão política clara, o conflito passa a ser visto como uma carnificina interminável, exatamente o que os inimigos de Israel desejam.

Sempre existiu um caminho alternativo, um que desse ao povo israelense e palestino a esperança de paz e estabilidade. O governo israelense, ao continuar pelo caminho atual, pode acabar levando o país à ruína, isolando-o e empurrando sua população mais talentosa a buscar um futuro longe dali. Se isso continuar, o Israel que conhecemos pode desaparecer.

Fonte: Estadão

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