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Mudanças climáticas: proteger-se do calor é mais caro do que do frio

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Foto: Marcelo Chello/Estadão

Paulo Saldiva, patologista, compara o corpo humano a uma cidade ou a um pequeno planeta, onde cada órgão é um bairro e as artérias são os rios. Em uma entrevista ao Estadão, ele ilustra: “Você pode imaginar que quando não chove, faz febre e desidrata. Quando chove demais, faz edema e inunda”. Desde os anos 1970, Saldiva estuda essas “pequenas cidades” no subsolo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), um local que lhe proporcionou uma visão privilegiada das mudanças ocorrendo no nosso planeta. “Você aprende muito sobre uma cidade ou planeta através da vida de um de seus componentes.”

Com foco inicial na relação entre mortalidade e poluição atmosférica, suas pesquisas pioneiras levaram-no a integrar comitês da Organização Mundial da Saúde (OMS). Um comitê definiu padrões de qualidade do ar, enquanto outro explorou o potencial carcinogênico da poluição atmosférica.

Não demorou para que Saldiva direcionasse seu estudo para as mudanças climáticas, especialmente em relação às temperaturas extremas. Ele participou de uma pesquisa destacada que evidenciou um aumento significativo no risco de morte durante picos de frio e calor. Publicada pela renomada revista científica The Lancet em 2015, a pesquisa abrangeu dados de 384 cidades globalmente.

Saldiva destaca que as mudanças climáticas já estão causando mortes prematuras, afetando principalmente os mais vulneráveis às variações de temperatura, como idosos e crianças. Ele compara a situação a um experimento em que “estamos aumentando a temperatura e contando quantas pessoas morrem ou adoecem”.

O médico alerta que proteger-se contra o calor é mais oneroso do que contra o frio, pois requer sistemas de ar condicionado. Ele observa que os países mais ricos, que mais contribuíram para essas mudanças climáticas, serão os que melhor conseguirão mitigar seus impactos. “Possivelmente, o saldo bancário e o CEP vão contar mais do que os genes.”

Em resumo, Saldiva enfatiza que a saúde humana é um indicador crucial do impacto das mudanças climáticas, refletindo não apenas condições ambientais, mas também fatores sociais e econômicos. Ele encoraja uma abordagem integrada que considere a saúde como um denominador comum nas políticas públicas transversais.

Fonte: Estadão

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