Uma brisa leve anuncia novos ares – Portal Plural
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Paulo Schultz

Uma brisa leve anuncia novos ares

Paulo Schultz

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O clima é pesado, o país tem mais de 300 mil mortes por conta da pandemia que já se prolonga há mais de um ano, e ainda vai longe.

Porém, paralelo ( e também concomitante), algo se movimenta no ar do país.

Era inevitável que chegaria um momento em que o ar pestilento trazido pela vitória e pelo consequente governo bizarro e nocivo de Bolsonaro iria saturar.

Saturou.

O Governo Bolsonaro, mesmo que chegue ao seu final, em 2022, virou uma farinha.

Exceto pelos rompantes de sempre, e pelas aloprações e delírios, não há mais nada de novo que o não-governo do ex- capitão possa produzir.

Poderá, institucionalmente, seguir até o fim de 2022.

Mas, salvo alguma mudança muito dinâmica da vida política e social do país, Bolsonaro e seu governo são defuntos por ora insepultos.

Claro que ainda haverá riscos, danos, destruições, etc.

Mas a overdose diária de tudo que se relaciona a Bolsonaro e seu mandato fez com que se chegasse ao ponto de saturação – uma pestilência amplamente rejeitada – antes de seu tempo final.

Apesar de toda dor e tristeza, e caos, causados pelas mortes na pandemia, diárias e imensamente prolongadas, sente-se uma brisa leve que alenta a imensa maioria da população.

Uma brisa que traz novos ares.. que permite com que as pessoas sintam silenciosamente que o tempo triste da pandemia vai passar, e também o tempo sombrio e negativamente denso do período chamado Bolsonaro também.

É um respiro novo, mais leve, mais humano.

Que, pelo momento, só pode ser sentido de forma respeitosa e silenciosa, mas que pode e deve ser alimentado de forma individual, e, ao mesmo tempo, como uma sensação coletiva de muitos.

O mal virou farinha.

Uma farinha que ainda estará por um tempo a nos importunar.

Mas que quando se dissipar por inteiro, nos permitirá querer e disputar o horizonte dentro de uma perspectiva não mais adoecida.

Será como perceber que há muito a reconstruir e muito a conquistar, mas que essa tarefa dura será feita com firmeza e ao mesmo tempo, com respeito à toda vida.

A bizarrice e o delírio nefasto da morte viraram farinha.

E a brisa da vida vai soprá-la para que nunca mais volte.

Sinta a brisa… feche os olhos…e sinta a brisa.

Quando tudo parece sombrio e perdido, os ventos sempre trazem uma novidade, invariavelmente boa.

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Paulo Schultz

Ó como é que faz !

Paulo Schultz

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Lula tem uma habilidade ímpar – ensinar como colocar um governo de direita ou extrema direita contra a parede.

Em pouco mais de uma hora de discurso, no mês passado, Lula encurralou nas cordas Bolsonaro e seu governo pestilento.

Bolsonaro tem andado de olho arregalado .. com cara de apavorado..

Antes surfava na delícia da sua pauta bizarra.

Agora, está espremido por uma pauta que não é a sua – que o coloca como incapaz, inábil, culpado.

Lula ensina que tocar nos pontos nevrálgicos que importam para a população e chamar a responsabilidade em cima de governos como o de Bolsonaro é uma grande sinuca política.

A melhor defesa é o ataque !

Pôr o dedo nas mazelas daquilo que aflige as pessoas, que esculhamba com as suas vidas, dizer que isso precisa ser resolvido, e lembrar que quem está no governo não está dando a mínima para isso, e sequer habilidade tem para tentar resolver, bem…não há estratégia melhor.

Ele também explicita que um partido que tem 30% do eleitorado do país não tem que ficar se curvando às vontades ou egos de quem possui menos de um dígito disso em intenção de voto ou em tamanho.
E isso não quer dizer desprezo,mas sim auto-respeito.

E também não tem que esconder sua trajetória.

Lula nos mostra que, sendo necessária , em uma aliança que amplie para além da esquerda, sempre a esquerda deve ter as linhas determinantes, sob pena de virar um puxadinho liberal, caso não predomine.

Lula ensina que quem quer crescer tem que fazer por onde, e botar o peito na água, sem medo, com ousadia.

Nos ensina que o medo não nos leva a lugar nenhum, e nos aprisiona na institucionalidade liberal, que, além de tudo, acomoda.

O discurso e a postura de Lula nos ensinam que é preciso apontar o bicudo e chutar o pau da barraca… de forma certeira.

Em seguida, se algo desnecessariamente se desajustou, a gente reorganiza.

Mas o principal é que aquilo que precisava ser derrubado, cai – de fato cai.

Lula nos indica que palavra certeiras nocauteiam todos que merecem a devida pancada, por conta de estarem causando danos à maioria – sobretudo àqueles que pouco ou nada podem em termos de defesa.

É preciso ter perspicácia para ouvir,entender, refletir, e a ousadia necessária para agir.

Se a gente não sabe como é que faz gol de placa, entrando a dribles, tem que ter humildade de assistir quem sabe.

Para que a gente possa fazer também – em todos os espaços da vida política, nacional, estadual ou local.

Depois que a gente pega isso..
A gente pega a bola…e com aquela ousadia de quem é atrevido, a gente vai para cima, e constrói vitórias consistentes.

E ainda se dá ao atrevimento de dizer:

” Ó como é que faz ! “

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Paulo Schultz

Quando a fome impede de sonhar

Paulo Schultz

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Dados estatísticos tornados públicos essa semana apontam que a insegurança alimentar atinge cerca de 116 milhões de brasileiros – mais da metade da população do país, portanto.

Mais cruel – a insegurança alimentar grave atinge cerca de 19 milhões de brasileiros.

Ou seja…

Mais da metade dos brasileiros dorme sem saber se vai ter o que comer no dia seguinte, seja em quantidade suficiente, seja em qualquer mínima quantidade.

O Brasil já tinha deixado o mapa mundial da fome nos anos dos governos Lula e Dilma.

Voltou de forma rápida para esse mapa, ainda durante os dois anos e pouco do governo ilegítimo de Temer.

E de 2019 para cá mergulha fundo neste quadro de fome crescente, desde que se iniciou essa bizarrice nefasta chamada governo Bolsonaro.

A fome, por si só, é algo cruel e desumano, que atinge em cheio a dignidade do existir de quem com ela sofre.

É um mecanismo perverso de subjugação, humilhação, e até de eliminação, daqueles que o capitalismo julga como inserviveis ou não-merecedores.

Apenas por esse aspecto,a fome é, portanto, humana e solidariamente inaceitável.

Mas tem mais….

A fome, e a preocupação ininterrupta de quem a tem, com a sua continuidade dia após dia, castram um outro elemento essencial da existência humana.

A fome impede, toda pessoa que a tenha, de sonhar.

E aqui o sonhar não é aquele sonhar do estado de sono de qualquer ser humano.

O sonhar castrado e asfixiado pela fome é aquele sonhar inerente à todo ser humano, de querer algo mais do que a sua própria subsistência.

É tolhido o direito, de quem passa fome, de sonhar e de querer, de pensar de forma não-aflita, e de projetar algo, por mais simples que seja, fora o aspecto de subsistir.

A pandemia agravou esse quadro.

Mas é preciso que se diga que ele é resultado direto da opção consciente e fria, tanto do período ilegítimo de Temer, quanto do período sombrio e pestilento de Bolsonaro.

E se é tirado de milhões o direito inerente de sonhar, lhes é tirado também uma parte importante daquilo que lhes dá desejo de vida.

Um contingente de milhões de brasileiros não tem mais alegria, não tem mais espontaneidade viva, não tem mais brilho nos olhos.

Lhes sufocaram algo que fora conquistado recentemente – sua capacidade de se auto-afirmar como pessoas dignas de cidadania, tanto quanto qualquer outra pessoa que seja ou esteja em uma condição social muito mais favorável.

A fome, portanto, mina a subsistência e comprime o sonho que move todo ser humano.

Atacar essa perversidade é uma tarefa obrigatória de quem vê a vida por outro viés.

Não é uma questão de dó ou pena.

É uma questão de enfrentamento duro e visceral, e de impor derrota, contra todos os fatores e os setores sociais que promovem essa crueldade.

A fome impede de sonhar.

Mas a gente tem que pegar no talo tudo que a promove.

E arrancar com firmeza.

Ao trabalho.

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Paulo Schultz

Alecrim, alecrim dourado

Paulo Schultz

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Havia um personagem no programa mexicano Chaves que, quando estes estavam na sala de aula, dizia a todo momento “olha ele, olha ele.”

Era uma espécie de incapacidade de se defender de ofensas ou provocações, combinado com uma forma de terceirizar a culpa – sempre nos outros.

Puxa da memória esse personagem porque o ex- capitão Messias, hoje, por uma circunstância infeliz ocorrida em 2018, ocupando o cargo da presidência da república, age absolutamente da mesma forma.

De nada e por nada ele é o responsável.

Tudo são os outros.

É o PT, é a esquerda, são os comunistas.

É o Congresso Nacional.
É o STF.
É o vírus chinês que veio para destruir o projeto que ele quer implementar no país.
São prefeitos e governadores que o querem afrontar e boicotar.
É a Globo, e outros da mídia brasileira, que querem desestabilizar o governo.

E só ainda não foram culpados os marcianos, uma vez que estes ainda não foram vistos a olho nu perambulando pelo país.

Tamanha é sua incapacidade como gestor, tamanha é sua covardia esperta, que sempre terceiriza fracassos, omissões e erros, carimbando a culpa nos outros, que isso bateu no limite do intolerável.

O país atingiu a marca de 300 mil mortos pela pandemia.

O desemprego bate em 14 milhões de pessoas, a informalidade atinge em torno de 40 milhões de brasileiros.

A economia anda mal.

O quadro de miséria e volta da fome para milhões de brasileiros aumenta gradativamente.

O governo federal não teve, em 1 ano, a capacidade de propor e gerir um plano nacional de combate à pandemia.

A negação,e, posteriormente, a letargia proposital na obtenção de vacinas para o combate à pandemia fizeram com que o país estivesse um atraso brutal nesse processo de imunização.

Mas nada disso é culpa de Bolsonaro.

Ele é o alecrim dourado.

Aquele que nasceu no campo sem ser semeado.

E que brotou como um mito… Sendo então descoberto e glorificado por uma parcela razoável de brasileiros que ansiavam por achar o seu alecrim dourado a quem pudessem seguir, se espelhar e adorar.

Sim, o ex-capitão se acha.

Um alecrim dourado.

Se vê como uma espécie de escolhido, destinado a implementar ideias bizarras e transtornadas com uma concepção torta de sociedade, que combina liberdade total das pessoas com um não-governo.

O Estado ausente da vida da população, tanto no que diz respeito à políticas públicas, quanto no que diz respeito a qualquer proteção, regulação e mediação social.

Um faroeste anarcocapitalista.

Mas vamos dar um choque de realidade no alecrim.

Já temos mais na metade do seu mandato tendo acontecido.. e todo um quadro de degradação política e social no país vem se solidificando.

Pois o alecrim é absolutamente incapaz de dar conta de gerenciar qualquer um desses problemas – que dirá todos.

Não é o arsenal infinito de bobagens,nem a incontinência verbal de ofensas e terceirização de culpas..nada disso resolve nenhum problema, de nenhuma ponta, de nenhum segmento do nosso país.

Na vida real é um desastre, um estrago.

Desastre bizarro, infeliz e custoso para a vida da grande maioria.

O alecrim dourado pode servir como totem para seus seguidores raiz..

Mas do ponto de vista da maioria.. da complexidade, da pluralidade, e para um país do nosso tamanho e com tão diversas características, ele é absolutamente incapaz, além de nefasto, e por vezes perigoso.

Já mencionei várias vezes que é preciso construir uma alternativa sólida, em primeiro lugar para estancar ou minimizar os danos, e, em segundo plano, para construir uma consciência pela esquerda, que essa aventura bizarra precisa ser encerrada ao final de 2022.

O alecrim dourado da música pode ser bem instigante.

Mas o alecrim dourado colocado na cadeira da presidência não serve para nada.

Terceirizar culpa é um atestado diário de incapacidade e covardia esperta.

Já deu para perceber que isso tem que ter fim..

Ao trabalho.

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