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Paulo Schultz

Perguntas curtas, respostas longas

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Será que tem remédio prá funcionário público, seja professor, policial, ou seja de qualquer função, que nunca aprende, mesmo se lascando, e muito, com governos de partidos de centro direita que ele (ou ela) persiste em votar e eleger?

Será que tem possibilidade de mudança para uma quantidade gigantesca de pessoas das periferias das cidades, que persistem votando e dando poder a quem não sabe sequer onde fica o local onde essa gente mora dentro da sua cidade?

Sim, porque temos um exemplo local recentíssimo de um candidato vitorioso, que entrou em uma vila da cidade pedindo desculpas no microfone, por nunca ter estado ali antes, e por sequer saber onde esse local ficava dentro da cidade para a qual ele estava se colocando como candidato a governar.

Tem o que fazer com a maioria do povo da periferia da cidade de São Paulo, que insiste em votar e manter na prefeitura, sequencialmente, por longos anos, os tucanos do PSDB, que governam pautados pelos interesses do poder econômico da turma do alto da Avenida Paulista?

Tem como mudar o parâmetro de decisão de alguém que escolhe e vota tendo como fator determinante alguma coisa tosca ou ignorante?

Tem como transformar o espírito de patrimonialismo, egoísmo e preconceito da classe média brasileira?

Tem como dialogar racionalmente com um bolsonarista raiz ?

Tem como conceber que milhares de fiéis acreditem piamente nas palavras e manipulações de líderes pregadores do fundamentalismo religioso, que são, sem filtro, hábeis charlatões, vigaristas e ordinários rapineiros do dinheiro alheio ?

Tem como não se exasperar vendo que os rumos do país estamos sendo capitaneados por uma criatura abjeta, perversa e sem qualquer condição para ocupar a função onde está hoje?

Tem como aceitar a complacência e a passividade com que a maioria reage àquilo que é inaceitável e injustificável, do ponto de vista de qualquer governo, de qualquer esfera ?

Tem como fazer eleições no Brasil, sem que a vontade das pessoas seja determinada corrompida e alterada pela influência do poder econômico?

Tem como fazer enxergar que a consequência de uma escolha errada recai sobre todos, e não só sobre aqueles que fizeram esse erro ?

Como explicar que mais da metade das pessoas entrevistadas em uma pesquisa de opinião recente define que o governo federal não tem responsabilidade alguma sobre as mais de 180 mil mortes de brasileiros nessa pandemia do coronavírus?

Há muito mais a perguntar, a questionar, que não cabe em um texto só.

Mas, para finalizar, só mais uma pergunta:

Porque, em determinados momentos, a gente não deixa de lado a conveniência social, e chuta o pau da barraca, respondendo, falando a verdade e mandando pedra e espinho para implodir qualquer frágil e farsesca situação que gere algum desses questionamentos ?

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Paulo Schultz

A radiografia do monstro

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O governo Bolsonaro.

Essa experiência bizarra e inédita na história política e social do país precisa ser compreendida.

Até para que não se repita.

Bolsonaro,hoje, é o expoente mundial da extrema-direita, depois que Trump foi derrotado no ano passado.

O Brasil virou um imenso laboratório social de uma plataforma ideológica inédita aqui.

Teorias e concepções, esquizóides ou não, vindas de figuras como Steve Bannon, Olavo de Carvalho, somaram-se à concepção torta e anárquica de sociedade do próprio Bolsonaro.

O resultado é o quadro atual que estamos ainda vivendo – uma degradação progressiva do país, com aumento acelerado da pobreza, da miséria, da concentração de riqueza, e o estremecimento dos pilares da República, como cupins corroendo uma madeira por dentro.

Uma questão profunda, que não se esgota em um só momento.

Vamos a um primeiro….

Mais de 6.000 militares ocupam cargos políticos no governo Bolsonaro – entre eles estão 9 ministros, neste momento.

Uma dúvida: Os militares se utilizaram de Bolsonaro para ascender e exercer um projeto de poder, ou Bolsonaro se ultilizou dos militares para exercer o seu ?

Independente de qual hipótese seja a mais correta, Bolsonaro, militar que foi, sabe bem que uma parcela dos militares tem uma devoção cardíaca por regalias e bolsos cheios por conta de salários gordos.

Sendo assim, ele soube como conquistar o coração sedento por regalias e rendimentos dessa porção das forças armadas.

Colocar toda essa gente de volta aos seus quartéis vai dar trabalho.

No campo ideológico, dentro da plataforma anarcocapitalista de sociedade que Bolsonaro quer implantar, desde o início do governo até agora já foram lançados mais de 30 atos normativos para alterar a política de acesso e uso de armas no país.

Intuito claro: facilitar uso e posse de armas, ampliar permissão individual de quantidade de armas e munição.

Uma gigantesca possibilidade de, perigosa meticulosamente, alimentar milícias de âmbito local, mas com orientação nacional.

Na área do meio ambiente, já.foram lançados, segundo levantamento, 1.112 atos do governo federal, voltados à alteração de leis ambientais, para facilitar a exploração predatória e destrutiva de recursos naturais.

Madeireiros, garimpeiros, fazendeiros do agronegócio estão faceiros como nunca.

Bolsonaro lhes dá um campo aberto para agir, com violência e armas inclusive.

Vista grossa e estímulo – é a lei do mais forte, tornada princípio de governo.

Quanto aos povos indígenas, e populações vulneráveis atingidas nestas áreas, Bolsonaro já falava antes: ” as minorias que se adecuem, ou desapareçam” – ele gosta de sociedade de faroeste, e nunca escondeu isso.

Na área das políticas sociais, uma terra arrasada.

À frente da pasta, uma figura nitidamente bizarra, prá não dizer mais.

E em postos chave da área também.

Foram destruídas, deturpadas, extintas, ou quase zeradas de recursos, políticas públicas em relação a mulheres, negros, minorias, vulneráveis, etc.

Tudo aquilo que existia antes, e é contrário ao viés fundamentalista evangélico, foi duramente atingido.

Aliás, essa turma fundamentalista, neste campo do desenvolvimento social, deve ser objeto de estudo.

Eles conseguem enxergar imagens e representações de pintos masculinos em tudo, inclusive em portas, paredes e obras de arte.

Freud teria um serviço interminável analisando esta gente.

No campo do trabalho, um aprofundamento daquilo que foi começado no período de Temer.

Desregulamentação do trabalho, retirando a proteção ao trabalhador, decepando seus direitos, e fazendo com que no país se tenha uma massa de milhões trabalhando em regime precário, sem nenhum tipo de proteção e amparo, sujeitos a uma carga brutal de trabalho diário e mal remunerado.

Tem mais…muito mais..

Como mencionei, o assunto é extenso e profundo.

Vamos por partes.

A vida tá dura, mas ela segue.

Isso tudo vai passar.

Mas a
gente vai precisar se envolver para isso acontecer.

Com coragem.

O momento exige coragem.

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Paulo Schultz

Mentiras, armário e morte

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Três pulsões correm nas veias da extrema-direita brasileira: mentiras, armário e morte.

Pulsão por Mentiras – há, na essência do bolsonarismo, e especialmente naquele que dá o nome a esse sintoma social, o capitão Messias, um gosto especial, e um método de comunicação que prioriza a mentira.

Tem aquele ditado que diz…..
“mente tanto, que nem sente”.

Que aqui se aplica totalmente.

O cara mente sem parar, falando ou fingindo.

Distorce, deturpa, nega fatos evidentes, cospe hipóteses bizarras como se fossem verdades absolutas e comprovadas.

Difícil saber onde começa algum transtorno mental e onde termina o método de mentir como estratégia de comunicação.

Mas, o que é evidente, é que é uma coisa diária, contínua e metódica.

Funciona para a família Bolsonaro, e o núcleo próximo pensante.

E funciona também para os seguidores raiz, alimentados diariamente com informação falsa.

Mentiras rasas, fáceis de memorizar, de repetir e de reproduzir, que viram verdade, tanto na comunicação interna entre os seguidores raiz, quanto na comunicação geral com a sociedade.

Certamente esse pessoal não conhece muito de Cazuza, mas Cazuza já dizia…
“mentiras sinceras me interessam”.

E como esta gente gosta de uma mentira para poder chamar de sua verdade.

Pulsão pelo armário – por trás de todo ódio contra o homossexualismo, ou qualquer outra forma sexual diferente da cultura heterossexual (seja a cultura fundamentalista dos pentecostais, ou a cultura reprimida dos conservadores), há um desejo louco de sair do armário.

Aquela vontade doida, reprimida, que se converte em ódio – “que ódio que o fulano conseguiu sair do armário, e eu não tive coragem”.

Porque se, de fato, fossem pessoas emocionalmente e sexualmente resolvidas, pouco lhes importaria a definição alheia.
Ponto final.

Pulsão pela morte – Bolsonaro tem uma pulsão pela morte expressa no seu semblante.
Não à toa que, mesmo após mais de 540 mil mortes pela pandemia do covid, não se percebe um pingo de empatia e pesar pela perda de vidas.

É que não há como esconder a primazia da pulsão pela morte.

Que também vem, de maneira sádica, quando milhões de brasileiros são expostos a uma espécie de morte lenta, causada pela insegurança e insuficiência alimentar diária – severa e extrema para um percentual destes milhões de brasileiros nesta condição.

E o cara tá cagando e andando para isso.

Pelo menos nesse quesito ele consegue defecar sem problema.

Nessa pulsão, fica o entranhado gosto e delírio pelas armas.

E aqui também entram todos, ou a grande maioria, dos seguidores raiz.

Boa parte deles urra de alegria com a possibilidade decretada, de facilidades para posse e uso de armas.

Mais munições, mais armas, mais liberdades…

Afinal de contas, os cidadãos de bem (como eles se definem) pensam ter direitos de eliminar aqueles que não são seus iguais.

Uma pulsão que passa por esse segmento minoritário da extrema-direita, e invade áreas institucionais, onde perigosamente essa pulsão de instala, com reflexos letais.

Três pulsões.

Danosas, corrosivas, extremadas, perigosas.

O Brasil virou o palco de um enorme laboratório social – do bizarro, do primitivo, da ignorância, do adoecimento fundamentalista, e do anarcocapitalismo ao estilo Mad Max.

É preciso encerrar isso.

Vai dar bastante trabalho.

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Paulo Schultz

? Onde foi que erramos ?

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Para deixar acontecer uma circunstância que levou uma criatura torta, tosca, bizarra e perigosa como Bolsonaro a ocupar o cargo de presidente?

Para ter que, ainda hoje, em 2021, escutar /ler/assistir algum militar bobalhão querer roncar grosso e ameaçar democracia e instituições, caso vontades e posturas de membros das Forças Armadas sejam questionadas, ou contrariadas ?

Para ver o governo federal ter milhares de militares ocupando cargos de confiança, numa intensidade maior do que na ditadura militar?

Para ver uma massa de gente agir como descerebrados, idolatrar um imbecil rotulado como mito, sentir orgulho de ser ignorante, não ter nenhum senso do ridículo, e defender ideias e posições inacreditavelmente muares, se vangloriando assim nas ruas e redes sociais?

Para ver o estado do Rio Grande do Sul ser governado em sequência por um bloco de partidos de centro e de direita liberal, e que, invariavelmente prioriza torrar a preço vil empresas públicas estratégicas para a população gaúcha, como se delas fossem donos ?

E, pior, ver a pasmaceira inerte da grande maioria da população, assistindo isso sem reação?

Para ter na Assembléia Legislativa gaúcha uma quantidade enorme de cabeças de bagre ocupando cadeiras como deputados ?

Para ter, na Câmara dos Deputados, crescentes levas eleitas de bancadas da bala, do boi, da PQP, menos as que mais deveriam importar para a maioria dos brasileiros ?

Para ver que, após ter saído do mapa mundial da fome, o Brasil ter hoje mais da metade da população em situação de insegurança alimentar ( de leve a extrema) ?

Para pagar mais de R$ 6,00 ( até chegar a R$ 7,00) por um litro de gasolina, sendo o Brasil autossuficiente em petróleo ?

Para assistir o governo federal tentar, de forma prioritária, liquidar empresas públicas estratégicas e fundamentais para o desenvolvimento e a soberania do país ?

E ver a grande maioria da população alheia a isso, sendo ela a que mais precisa de políticas públicas e de um estado indutor, devido sua fragilidade social ?

Por não conseguir formar uma consciência individual e coletiva mínima no país, de que tem coisas que não se deve aceitar (sob alegação alguma) , e que tem limites de tolerância e dignidade os quais não são “negociáveis”, sob pena de continuar penando por insistir nos mesmos erros.

Há uma lógica a ser invertida.

E ao invertê-la, teremos a clareza de afirmar onde é que acertamos, e por onde vamos, enquanto pessoas, enquanto país.

Errar é humano, insistir no erro é burrice, e sofrimento desnecessário.

Vida que segue, de preferência, acertando.

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