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Paulo Schultz

Nada mais se encaixa❓ É isso que ele quer

Paulo Schultz

Publicado

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Nada mais se encaixa❓
É isso que ele quer

Aí você ouve ou lê…. “Bolsonaro comanda um desgoverno, não sabe o que quer, está perdido”.
E vê conflitos diários em torno das falas e ações de Bolsonaro, e conclui que é isso mesmo.
Certo?
❗Errado❗
Bolsonaro não está perdido, e sabe o que quer fazer no país.

A situação de crise no país, por conta de uma crise econômica e social que já vinha se instalando desde 2015, e se agravou gradativamente de 2016 até aqui, somada à epidemia do corona vírus, traz o cenário ideal para os planos de Bolsonaro.

Bolsonaro quer o conflito político e social diário e permanente, quer que a epidemia ceife milhares de vidas, quer uma situação de desespero, desemprego, fome, violência.
❗É no caos que seu projeto pode vingar.

Bolsonaro quer uma sociedade onde a vida das pessoas, a economia, o uso de recursos naturais, funcionem livres de qualquer mediação, regulação ou proteção do poder público.
Uma espécie de anarcocapitalismo bárbaro.

Que possui três pilares principais.

Primeiro, com o poder público se ausentando e se eximindo de políticas sociais de inclusão e proteção, as igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais assumem essa função, e nessa circunstância cativam milhões de pessoas para um fundamentalismo insano que serve à concepção de sociedade desejada por Bolsonaro e seus seguidores.

Segundo, com o Estado se ausentando de políticas de segurança pública, as milícias tomam conta dessa função, estabelecendo no país inteiro o que já acontece nas favelas do Rio de Janeiro, onde elas, as milícias, são a lei e a ordem – lei e ordem criminosas, coisa de faroeste.

Terceiro, com o poder público se ausentando do papel de indutor do crescimento e do desenvolvimento, uma pequena elite social e econômica toma conta disso, tendo a seu favor um ambiente propício: produzir e explorar de maneira livre e selvagem, sem direitos trabalhistas, sem barreiras ambientais, e sem respeito ao direito de minorias.

Resumindo: uma sociedade onde a lei do mais forte vinga – na base do poder do dinheiro, da ausência de garantias mínimas de proteção à vida, e na base da força, com o uso liberado de armas.

❗É isso que Bolsonaro quer❗

É muito pior do que o modelo perfumado do neoliberalismo.
Este já é ruim, porque retira o poder público, e coloca o mundo privado para fazer suas funções, numa lógica que, se pode pagar, tem, se não pode, fica sem.

No anarcocapitalismo bárbaro bolsonarista, temos uma sociedade em que o poder público se exime de políticas e de mediação social – um ambiente selvagem e propício à barbárie, em todos os aspectos.

❓Isso pode de fato acontecer ❓
Pode.

Na verdade isso já vem se instalando passo a passo.

Bolsonaro tem desencaixado, dia após dia, com suas ações, e as de seu governo, os pilares da república brasileira.

Confrontos contra o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, a imprensa, a profusão de iniciativas para modificar leis, eximindo o estado de controle e mediação nas questões ambientais, o afrouxamento e a liberação para uso maior de armas, o avanço no aniquilamento da legislação trabalhista, o combate ao saber acadêmico, o combate à pesquisa e à ciência, o incentivo à agressão às minorias, a intenção de torrar empresas públicas estratégicas do país( como Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Federal, Eletrobrás, etc.), a postura genocida frente à epidemia, querendo expôr milhões à contaminação e à morte.
Tudo isso já é o andamento da instalação da sociedade bárbara que Bolsonaro quer acontecendo no país.

❓Podemos evitar ❓
Sim, devemos.

Depende de mim, de você, dos partidos de esquerda, dos movimentos sociais, dos setores e entidades da sociedade comprometidos com a democracia, da direita e do centro democráticos também, e, sobretudo, da consciência da grande maioria dos brasileiros de que essa experiência insana, destrutiva e perigosa, chamada governo Bolsonaro, que já dura quase um ano e meio, precisa ter fim.

É preciso ofensividade política para isso.

É preciso tensionar a presidência da Câmara para que as dezenas de pedidos de impeachment sejam analisados, e um deles tenha início.
É preciso que o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal, o Ministério Público, não se acovardem diante das agressões e intimidações diárias do bolsonarismo, e resolvam enfrentar a onda fascista.

Mas esse enfrentamento se impulsionará apenas a partir da pressão e movimentação popular por sobre, e por dentro dos partidos, dos movimentos, e de todos os setores da sociedade que queiram esse objetivo.

Dado que estamos impossibilitados de movimentos de rua, temos o caminho: as redes sociais.

Um trabalho diário, intenso e convincente e efetivo de pressão e construção de uma narrativa hegemônica de que o que estamos vivendo no país precisa parar por aqui, pelo bem do país e da vida.

Não é fácil, e custará enfrentar espinhos e violência.
Mas é o necessário.
Ao trabalho.

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Paulo Schultz

Voltam os atores principais

Paulo Schultz

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O retrato político do país, mesmo sem os resultados do 2o turno, é claro.

Volta a se postar no cenário a dualidade centro -direita x esquerda.

Numericamente a centro-direita levou vantagem, mas o conjunto da esquerda, teve no primeiro turno, e terá no segundo, vitórias encorpadas e importantes.

Há o vigor obtido pelo PSOL, a resiliência forte do PT, e a presença sempre importante do PC do B e outros da esquerda do país.

Há que se considerar também o germinar de novos quadros dentro da esquerda, candidaturas vitoriosas vindas da periferia, das minorias, da juventude, das mulheres.

Do lado da centro-direita, que parece ter retomado o espaço político perdido em 2018, vemos a emergência numérica de velhos partidos de direita clássica (PP, Dem) e do fisiológico centrão.

Um misto de raposas antigas, com filhotes novos da mesma espécie.

Este cenário posto remete à uma conclusão:
Sai da cena principal a extrema-direita, o bolsonarismo.

Que saiu minguadíssimo das urnas, o que aponta para o retorno ao seu tamanho de gueto.

Dada esta condição, somada a inaptidão e falta de habilidade para governar e dar conta da complexidade econômica e social do país, bem como a crise que se projeta para 2021, temos um indicativo que o fenômeno bizarro e destrutivo chamado Bolsonaro será uma andorinha de um verão só.
Para o bem da nação, afirmo.

Evidentemente trata-se de um indicativo.
Mas é o rumo apontado pelos resultados.

Aquele que sempre foi coadjuvante, e por uma circunstância infeliz foi alçado ao cenário principal, deve voltar ao seu papel de figurante.

E voltam os atores principais.

Primeiro, voltam dentro da realidade dos municípios, nas disputas locais de políticas públicas e na implementação de linhas ideológicas de governo bem distintas.

Segundo, se aponta para uma disputa, no horizonte, de projeto de país.

De um lado, subserviência ao poder econômico e ao capital, e migalhas conformadoras para o aspecto social.

De outro, um projeto de país soberano, com forte indução de crescimento social e construção de cidadania.

Foi o quadro que se firmou no cenário do país nas últimas décadas, não de maneira artificial, mas de maneira enraizada, social e politicamente.

Cenário apontado, atores principais a postos.

Vamos ao embate, que começa no plano local e desemboca no nacional.

Parece que a vida real da política do país está retornando.

Com direito à elencos parcialmente renovados, mesclados aos mais experientes.

Ao trabalho, cada qual com suas perspectivas.

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Paulo Schultz

A novidade é o velho voltando

Paulo Schultz

Publicado

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A velha direita clássica representada no PP, no Dem, e os partidos do pragmático “centrão” foram os grandes vencedores das eleições municipais esse ano no Brasil.

O mapa das votações dos partidos, das prefeituras conquistadas, do número de cadeiras conquistadas em câmaras de Vereadores, aponta claramente isso.

O bolsonarismo minguou.
Parece ter voltado ao seu tamanho de gueto.
E há várias razões para isso.

Uma delas é a incapacidade de formulação de propostas e de fazer política do bolsonarismo raiz.

É notório que a quase totalidade dos bolsonaristas raiz tem um vocabulário menor do que o vocabulário de um papagaio bem treinado.

E aí fica difícil fazer política e formular propostas.
Sobre o bolsonarismo e seu resultado raquítico nessa eleição de 2020, é isso.

Por outro lado, é preciso também considerar uma retração em números da esquerda.
E aqui cabe frisar, que esta retração em números é relativa, pois há que se contar a presença da esquerda em dezenas de disputas no segundo turno, em capitais(como São Paulo) e outras cidades de porte médio e importantes do país.

Mais: se no primeiro turno houve uma retração numérica da esquerda, há também que se considerar uma importante e promissora renovação de quadros, a partir da eleição de muitas figuras políticas novas da esquerda, com muita força para a eleição de muitos candidatos e candidatas vindos das periferias, além de oriundos de minorias.

Há um germinar dentro da esquerda, como um todo.
O que, de forma simbólica e na prática, significa fôlego, resistência, capacidade de renovação e crescimento consistente.

Como diz Lulu Santos, ” a vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito”.

Ou seja, em ciclos longos ou curtos, ondas políticas de direita, de centro, de esquerda, de extrema direita, se revezam dentro da sociedade.

O país saiu de um ciclo extenso de esquerda, que terminou de maneira forçadamente interrompida, para entrar num período de transição neoliberal, e, em seguida, em um período de extrema direita, inconsequente e incapaz, que, me parece, será um período único, sem repetição.

E chegamos a este ano de 2020, com a velha direita e o velho centrão ganhando terreno dentro da sociedade brasileira.

Ainda precisa de tempo para ter todos os fatores que compuseram a vitória deste grupo político de centro-direita.

É preciso passar ainda pelo segundo turno, e é preciso, sobretudo, fazer análises locais, e ao mesmo tempo nacionais, dos fatores que levaram a este resultado político no país.

Os próximos dias e semanas, juntamente com a reflexão necessária, nos darão estas respostas.

Mas no início dessa reflexão, deve-se começar com perguntas e observações:

Por quê a maioria do eleitor brasileiro optou pela velha direita clássica, e pelo fortalecimento da força política do centrão ?

Considerando que estas forças políticas são pragmáticas e, ao mesmo tempo, aliadas, submissas e servidoras do poder econômico, e dos interesses mais espúrios e nojentos deste.

Que debilidade social e financeira, que fragilidade de consciência, levou a maioria do eleitorado brasileiro a optar por quem faz campanhas e conquista vitórias eleitorais alicerçado na coação, na pressão, na compra de voto com dimheiro vivo ou de maneira indireta, e na trapaça sob as mais variadas formas?

Que guinada fez parte majoritária da população trazer o velho de volta, como se novidade fosse?

São perguntas de fundo, são observações iniciais, que devem abrir o processo de reflexão para entender o resultado político destas eleições municipais de 2020.

O fato é que teremos, em milhares de municípios e de câmaras de vereadores, pelo país afora, a velha maneira da velha direita e do velho centrão predominando.

E o resultado disso, para a grande maioria da população, não será bom, inevitavelmente.

Quando um ciclo novo vem, trazendo o velho de volta, temos uma espécie de retorno de algo que nunca colocou o país em um bom rumo.

Será que vale a pena tomar remédio ruim de novo?

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Paulo Schultz

Dinheiro na mão é vendaval

Paulo Schultz

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Para quem faz campanhas eleitorais baseadas e aliadas ao poder econômico, dinheiro na mão é vendaval.

Um vendaval destrutivo e nefasto.

Porque este dinheiro, sendo utilizado para corromper e sabotar o desejo e a esperança de milhares, é como um vendaval que vem para destruir a possibilidade de um futuro digno de muita gente.

É um dinheiro cínico, porque quem o oferece sabe disso.

Sabe que está pisando em cima da dignidade de milhares de pessoas.

Sabe que está oferecendo um alívio momentâneo para as mazelas, carências e necessidades das pessoas, e ao mesmo tempo, está ceifando a possibilidade de que estas pessoas tenham cidadania e dignidade de forma duradoura nas suas vidas.

Todo período eleitoral eles aparecem: os operadores da ação pesada e fria da distribuição do dinheiro que o poder econômico dispõe para fazer impor a sua vontade e fazer maioria suficiente para que seu projeto vença.

Entram no período eleitoral de forma sorrateira, e à medida que este período avança, e se aproxima do finalmente, vão aumentando o volume, vão intensificando e apertando o cerco, avolumando recursos para garantir o seu objetivo: pisar na vontade das pessoas e impor-se.

Enfrentar esta força é uma tarefa dura, tensa, mas é a tarefa necessária.

É tarefa de quem se propõe a respeitar as pessoas, tratá-las com a humanidade e a sensibilidade de quem quer cidadania para todos.

Enfrentar essa força é querer conter com firmeza o vendaval que ela produz na mente de milhares – um vendaval imposto por cédulas de dinheiro transportadas nas mãos dos operadores desta ação disruptiva.

Que no encerramento deste período eleitoral, após esse duro embate, entre o vendaval endinheirado de quem está aliado ao poder econômico, e a força solidária dos que querem respeito e cidadania para todos, vença a força solidária, pois é ela que quer construir, afirmar a possibilidade para todos.

Ao trabalho.

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