Lorenzo Mattotti fala de sua animação ‘A famosa invasão dos ursos na Sicília’ – Portal Plural
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Cultura

Lorenzo Mattotti fala de sua animação ‘A famosa invasão dos ursos na Sicília’

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Consagrado nos quadrinhos pelas HQs Il Signor Spartaco (1982), L’Arbre du Penseur (1997) e Estigmas (1998), o italiano Lorenzo Mattotti, considerado pelo mercado editorial um dos mais requintados ilustradores da Europa, anda cansado da maneira como a fantasia vem sendo barateada na ficção, em especial nas telas, tornando-se coadjuvante de um realismo mais preocupado em levantar bandeiras políticas do que em transcender.

Com um orçamento de € 11 milhões nas mãos, o quadrinista de 66 anos resolveu reagir à falta de espaço às fábulas e transformou em animação um livro do escritor Dino Buzzati (1906-1972): La famosa invasione degli orsi in Sicilia (1945). Indicado para o prêmio Un Certain Regard de Cannes, em 2019, o longa-metragem foi uma das sensações do último Festival Varilux, em novembro. O forte boca a boca que gerou por aqui estimulou seu lançamento em plataformas brasileiras de streaming: já é possível conferir A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília no Now, da Claro/NET, e na Vivo TV.

Conhecido entre os brasileiros por seu álbum Carnaval (2006), que ilustrou a partir de imagens da Marquês de Sapucaí e outras manifestações nacionais da farra de Momo, Mattotti buscou a essência lúdica de Buzzati no filme. Na trama, Tonio, o filho do Rei Urso, é capturado por caçadores nas montanhas sicilianas. Em meio a um inverno rigoroso, esse monarca do reino animal decide invadir o reino em que vivem os homens. Com a ajuda de um poderoso mago, o rei consegue encontrar seu filhote, mas esse já não parece mais o mesmo. Em entrevista por Zoom ao Estadão, Mattotti fala de suas incursões na linguagem audiovisual.

Há um depoimento de Dino Buzzati no qual ele diz: “Sou um pintor que, por hobby, durante um período infelizmente bastante longo, fez-se também escritor e jornalista. O mundo, no entanto, crê que seja o contrário e não ‘pode’ levar a sério minhas pinturas”. O quanto um artista gráfico e, agora, também diretor, como o senhor, identifica-se com ele?

Um dos grandes pintores metafísicos do século 20, Buzzati foi uma referência na minha formação como ilustrador, sobretudo por buscar, já no traço, maior profundidade para as figuras que representava. Não quis usar tons pastel e, sim, trabalhar com a mesma dinâmica de saturação dele. E existe em Buzzati uma celebração do prazer de narrar a partir da construção mundos diferentes do nosso, mundos imaginários. O Velho Urso é mais do que um simples personagem. Ele é um contador de histórias. Por isso, na versão francesa, eu convidei Jean-Claude Carrière, um escritor, roteirista e dramaturgo, para dar voz a ele. Jean-Claude é um contador de histórias por essência.

O quão imaginário é o Brasil que o senhor retratou no álbum Carnaval?

Aquele Brasil é um mundo de cores, de diversidade. O Tempo e a vivência me ensinaram que nunca se deve viajar levando melancolia na mala, nem trazendo melancolia de volta para casa. Eu viajo levando cores. Traduzindo o mundo em cores que harmonizem as minhas lembranças.

E como foi trabalhar as cores de A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília na linguagem da animação, fora do papel, do desenho, que é seu hábitat?

O cinema de animação incorre muitas vezes num espectro monocromático: não é que ele use uma só cor, mas há uma rejeição em se explorar os contrastes de cor e as sensações que as contradições geram. Eu não escolho cores de maneira racional e, sim, afetiva. Nesse filme, por conta da dimensão geográfica da Sicília, pensei apenas em fazer referência à luz natural do Mediterrâneo. A paleta para colorir a história dos ursos veio das indicações do próprio Buzzati e da gradação que a iluminação trazida pelo sol nas paisagens sicilianas me trazia. A ideia era sempre me remeter à Itália real sua riqueza cultural.

Em Cannes, em 2019, “fábula” era a palavra mais usada para definir seu filme na projeção na mostra Un Certain Regard. Que lugar sobrou para as narrativas fabulares em um mundo que foi assolado pela de pandemia?

Fábulas são ferramentas de libertação capazes de cartografar os buracos em nossa condição existencial em busca de sentido. O cinismo do dia a dia e a desatenção ao próximo fizeram o nosso imaginário empobrecer. Temos, num certo imaginário coletivo, uma fauna rica em mitos e lendas, mas não apelamos mais a ele, com o pudor de que o uso do simbolismo possa desconectar nossa atenção dos conflitos mais concretos à nossa volta. Estamos passando por uma nova formatação uniforme de olhar. Estamos sendo formatados para “descrer”. Eu quis filmar Buzzati pelo fato de ele ter nos mostrado o contrário: ele mostrou que a fábula pode filtrar a realidade, revelando o que não somos capazes de ver. E eu quero ver.

Por Rodrigo Fonseca, especial para o Estadão
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Cultura

Alexandre Maronez é anunciado como presidente do Musicanto 2023

Festival acontecerá em 2023 e terá como vice-presidente Gerson Lauermann.

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O empresário Alexandre Maronez, que presidiu a FENASOJA 2018, foi anunciado nesta quinta-feira (08 de julho) como presidente do Musicanto 2023. A decisão é do Conselho Consultivo da feira que aprovou também o nome de Gerson Lauermann (presidente da FENASOJA 2016) como vice-presidente do festival.

Alexandre foi presidente da feira que retomou o Musicanto, este dentro da Arena instalada no Parque de Exposições de Santa Rosa. “Utilizamos a força da feira para retomar um dos eventos culturais mais importantes do Estado. Agora como presidente do Musicanto, junto com Gerson Lauermann e a equipe, iremos projetar um grande festival para 2023”.

O Musicanto completa 38 anos, sendo um festival de características singulares, cosmopolita, integrador de culturas, aberto a todas manifestações da música do continente. Alexandre Maronez ressalta que ainda não estão definidas as datas, mas o festival acontecerá em 2023, repaginado, dentro da realidade atual. “A ideia é aperfeiçoar o projeto de forma que ele se torne atrativo para o investimento de grandes patrocinadores. O Musicanto acontecerá em anos intercalados com a realização da Feira”.

O presidente da FENASOJA 2022, Elias Dallalba parabenizou Alexandre e Gerson pelo desafio de manter vivo este importante festival, que ressalta a história da cultura de Santa Rosa. “Vamos trabalhar juntos para construir um evento grandioso, do tamanho do festival”.

 

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Cultura

Rufino solicita que prefeitura participe do Auxílio Emergencial a trabalhadores da Cultura e Esporte

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O vereador Rafael Rufino (MDB) solicitou, na sessão de segunda-feira (5), ao Poder Executivo Municipal a participação de Santa Rosa nos editais que se encontram abertos pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul, vinculados à Secretaria Estadual do Esporte e Lazer e à Secretaria Estadual da Cultura, para a concessão de Auxílio Emergencial a profissionais do esporte e da cultura, em regime de coinvestimento.

O auxílio emergencial fará uma grande diferença na vida desses profissionais que foram e continuam sendo impactados fortemente pelas restrições sanitárias exigidas pela pandemia de Covid-19. Os recursos que financiam a iniciativa são oriundos do Fundo Estadual de Incentivo ao Esporte (Pró-Esporte) e do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e de convênios com as prefeituras.

O prazo de inscrição para a apresentação de propostas, segundo Edital Sedac nº 04/2021, vai até às 16h59min de 15 de agosto de 2021, visando à habilitação de municípios gaúchos interessados em aderir ao regime de coinvestimento para a concessão de auxílio emergencial a profissionais da cultura. Por isso, solicita-se empenho da Administração Pública de Santa Rosa para que realize a inscrição municipal a tempo.

Já o auxílio para os profissionais do esporte beneficiados será de R$ 800, sendo que R$ 600, o equivalente a 75% do valor, resulta de repasse da Secretaria de Esporte e Lazer e R$ 200, das prefeituras. O pagamento do benefício ocorrerá em parcela única. O valor disponível para os profissionais do esporte é de cerca de R$ 6,1 milhões;

 

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Cultura

Iniciou a oficina de Produção Cultural em Santa Rosa

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O Departamento de Cultura da Secretária de Educação vai realizar uma oficina de Produção Cultural. As atividades vão acontecer em parceria com a Associação Cultural Articula Dança RS, entidade que reúne profissionais da dança no Rio Grande do Sul, através do projeto Articulando a dança pelo RS: À La Carte.

Em formato virtual será realizado um Laboratório de Projetos. O objetivo da atividade é qualificar os participantes dos editais do Fundo Municipal de Cultura para que tirem do papel o projeto e adaptem para outros editais, leis de incentivo à cultura ou venda direta. A oficina de Produção Cultural – Laboratório de Projetos será com Liege Biasotto e acontecerá nos dias 05 e 12 de julho das 19 às 21h. As inscrições podem ser feitas no Departamento de Cultura, ou através do telefone 3511-5112.

Santa Rosa receberá outra oficina que está sendo articulada com a Associação Cultural Articula Dança RS. Esta iniciativa está sendo executada através do Edital Criação e Formação Diversidade das Culturas realizado com recursos da Lei Aldir Blanc nº 14.017/20.

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