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LEITURA OU MORTE

Luis Arthur Hoffman

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O PROFISSIONAL E O DESAFIO DA CRIATIVIDADE – O que revelam os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2018

Em matéria de Caue Fonseca publicada na Zero Hora (edição de 26/06/2019), lemos sobre uma avaliação realizada pela prefeitura de Porto Alegre em suas 49 escolas de ensino fundamental, em testes de língua portuguesa e matemática. Ficamos sabendo que o resultado foi ruim, observando-se dificuldades de leitura e de cruzar informações para resolver problemas, ressaltando a “queda de desempenho do 5° para o 9° ano, especialmente em matemática”. Mas o que chama a atenção na matéria, para além de o resultado ter apontado o fraco desempenho dos alunos, é o fato de que, tendo em mãos o percentual de acertos de cada uma das questões, percebeu-se a “dificuldade dos estudantes em compreender o enunciado dos problemas”. Das palavras do Secretário Municipal de Educação Adriano Naves de Brito; “Em visita a uma das escolas que já está trabalhando em cima dos resultados da prova, um professor de matemática me contou que diversos alunos erraram uma questão por não compreenderem o termo “cujo” no enunciado. Isso vem de histórico de leitura muito pobre, outro ponto que temos de melhorar com urgência nos anos iniciais”. (grifo nosso)

O publicitário Fábio Bernardi, articulista da Zero Hora, em sua coluna denominada “Criatividade ou Morte” (edição de 12/11/2019) vaticinou: “nesse mundo em absoluta transformação dos dias atuais, só há um caminho possível: criative-se”. Lembrou que o neologismo nada mais é do que “a palavra ‘ative’ inserida dentro da palavra ‘crise’, e que seu sentido nada mais é do que entrar no meio da crise de maneira ativa, com uma atitude diferente da mera resiliência, (…) ou da repetitiva reclamação cômoda e rançosa”. Diz ainda: ‘não é negar o momento, mas apenas não se render a ele’. Lembrando que a crise está aí e é preciso avançar apesar dela, afirma que para 2020 a criatividade figura como a 3° habilidade mais importante para um profissional, atrás apenas de resolver problemas complexos e pensamento crítico. Ressalta que “o Linkedin, a maior plataforma de empregabilidade do mundo, colocou a criatividade no topo das habilidades mais buscadas por empregadores em 2019 – e é a primeira entre as 300 mais valiosas capacidades para um profissional do futuro”. Encerra sua coluna dizendo: (…) ‘Mas neste veloz congestionamento cotidiano de verdades e mentiras, “é a criatividade que nos permite reinventar o real e até nós mesmos. É ela que nos faz sempre novos, atualizados, curiosos com o que há por vir. É a criatividade que nos faz contemporâneos do futuro”. (grifo nosso)

Cláudia Laitano, em sua coluna na Zero Hora (edição de 04/11/2019), denominada “Tempo e atenção”, falando de Jacke Wilson, apresentador do podcast History of Literature ( disponível no Itunes e Spotify), menciona a existência de um sentido de urgência na forma como esse escritor e estudioso amador discorre sobre autores como Proust, Borges ou Alice Munro: ”Wilson está convencido de que a sobrevivência da literatura está ameaçada. Não pela tecnologia ou por uma possível obsolescência dos livros de papel, mas pelo pior de todos os males: a irrelevância”. Assim, em cada episódio de History of Literature aborda um autor ou gênero “que ampliou nossa forma de sentir e pensar – sobre o mundo, mas também sobre nós mesmos”. Se existe uma guerra, esse é o território que estamos defendendo. Chama nossa atenção o que ela escreve ao finalizar seu pensamento: “Os livros, claro, nunca vão deixar de existir, mas será que ainda temos tempo para eles? O excesso de oferta estaria nos deixando enfastiados de conteúdo? Ninguém se apaixona por um livro parando a cada 10 minutos para conferir o celular ou abandonando a leitura na página 20 para começar outra. A leitura exige tempo para o recolhimento e disposição para manter um único foco de atenção em meio a uma ilimitada oferta de distrações. Tempo e atenção. Nada mais do que isso. Tudo isso”. (grifo nosso)

O que uma leitura atenta desses três pontos informa? 1 – que as pessoas estão considerando o hábito da leitura irrelevante; 2 – que o desenvolvimento de uma capacidade leitora é cada vez menor; 3 – que a compreensão de textos é cada vez menor; 4 – que o desenvolvimento de habilidades interpretativas é cada vez menor; 5 – que o pensamento crítico é cada vez menor; 6 – que na falta de tudo isso é impossível ser criativo; 7 – que sem ser criativo será impossível ser o profissional do futuro capaz de reinventar o real mencionado pelo publicitário Fábio Bernardi; 8 – que sem trilhar o caminho da leitura para chegar à criatividade, o indivíduo está literalmente “morto” para o mercado de trabalho e, por conseqüência, para os demais atos de uma vida normal e saudável.

Acima de tudo, revela um fator debilitante da sociedade atual, de sua fragilização: o grave aumento do número de jovens com dificuldades em se expressar por meio de textos, onde seu grande desafio é ordenar as palavras e dar sentido às idéias que buscam compartilhar nas redes sociais reais ou virtuais. Usando gírias, repetição de palavras, erros de ortografia e abreviaturas na escrita (e também na fala), a grande maioria não consegue escrever textos com a lógica e coerência que são exigidas no mundo profissional.

E aí pais, mães, professores? Estão realmente comprometidos com o desenvolvimento da competência leitora dos jovens (não só de livros didáticos e resumos de internet)?

Infelizmente parece não ser isso o que está ocorrendo. Em artigo escrito por Juracy Assmann Saraiva, Tatiane Kaspari e Ernani Mügge, intitulado “O desprestígio da literatura e suas conseqüências”, na edição n° 85 da revista ‘Pátio Ensino Fundamental’, do ano de 2016, sabe-se que de modo geral está acontecendo uma desvalorização do conhecimento, apesar das exigências do mercado de trabalho; que professores do ensino fundamental II e do ensino médio de todo país falam do desinteresse de seus alunos pelos textos literários, com raras exceções; que no ensino superior, é generalizada a queixa entre professores dos cursos de letras sobre o nível de competência leitora de seus alunos, cujas referências a respeito de obras da literatura brasileira e ocidental são tão escassas que, para os docentes, torna-se difícil promover diálogos que possam elucidar aspectos peculiares .

No mesmo artigo sabe-se que dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – que visam traçar um panorama das práticas de leitura dos jovens brasileiros e de sua competência leitora – confirmam as carências de leitura das novas turmas que ingressam no ensino superior, explicitando a precariedade dos ensinos fundamental e médio.

Ainda: “um estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro, em parceria com a ONG Ação Educativa e o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope Inteligência), estima que 27% dos brasileiros não sabem ler ou lêem apenas títulos e frases, reconhecem uma informação explícita e têm dificuldades de se expressar por meio da escrita, sendo, portanto, analfabetos funcionais; 42% têm uma habilidade básica de leitura, sendo capazes de ler textos curtos e de localizar informações explícitas; 23% apresentam um nível intermediário de leitura, sendo capazes de fazer pequenas inferências e de interpretar e de realizar a síntese de textos diversos; e apenas 8% dos brasileiros efetivamente compreendem o que lêem, são capazes de relacionar e de comparar informações e de situar-se criticamente diante do texto lido” (Inaf, 2016).

Ainda no mesmo artigo: “Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), referentes a 2015 e publicados em dezembro de 2016, mostram um desempenho pouco satisfatório dos adolescentes brasileiros. Na prova, aplicada em 70 países, os brasileiros atingiram a 63ª posição em ciências, a 59ª em leitura e a 66ª em matemática”. Segundo esse estudo, nossos jovens de 15 anos ainda não desenvolveram as competências básicas para decodificar a mensagem de um texto e usufruir dele. Como uma bússola, o resultado aponta para a urgência de investir na formação de leitores desde os anos iniciais da Educação Básica.

Esta semana, dia 02/12/2019, o PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – divulgou seu relatório com os resultados referentes a 2018, revelando que a mudança com relação aos dados de 2015 foi muito pequena. Informa que na prova os brasileiros atingiram a 58ª posição em leitura, ganhando apenas uma posição de vantagem com relação a 2015, e regrediram para 71ª em matemática, caindo 2 posições. Ainda, o relatório de 2018 traz uma triste informação: “metade dos alunos brasileiros com até 15 anos de idade não entendem o que lêem”.

Com base nesses dados, merece atenção o que diz Marcos Gross Scharf, Mestre e especialista em Gestão de comunicação: “(…) no mundo profissional, a incompetência na articulação falada e escrita tem seu preço: ela pode limitar o crescimento na carreira, restringir promoções, diminuir a autoestima e aumentar a sensação de exclusão”. Ainda, que “certamente a pobreza no vocabulário repele oportunidades, porque apesar das mídias digitais e inovações tecnológicas, todos ainda dependem da coerência das palavras para fechar negócios e parcerias”.

Talvez por comodidade, hoje todos lêem em seus smartphones, sendo cada vez menor o número de pessoas que usam tablets, laptops, computadores de mesa, que dirá de livros, jornais impressos e revistas. Ainda, cresce exponencialmente o uso de aplicativos, vídeos e “podcasts” sintetizando ao mínimo o conteúdo de livros. Resultado: as pessoas lêem e ouvem somente o “resumo dos resumos” e ficam com preguiça de ler conteúdos mais extensos e complexos disponíveis nestes outros meios. Voltemos ao que, sobre isso, diz Marcos Gross Scharf: “Certamente ler é um processo cansativo se comparado com as mídias digitais. Internet, vídeos, sons, multimídia são mais envolventes que a leitura”. Mas dá uma dica: “leitura, como qualquer hábito, exige concentração e disciplina. Acostume-se à prática e ‘curta’ a experiência”.

Certamente é difícil para a geração “millenial”, nascida entre 1990 e 2000, criada num mundo conectado e interligado via internet, interromper momentaneamente o passar de um para outro pensamento, conseqüência do uso quase que exclusivo do tempo para o manejo das redes sociais, e aceitar a convocação da literatura, ver do que se tratam, na íntegra, as histórias e conteúdos narrados nos livros.

Eles precisam compreender que leitura exige “qualidade de presença”, um silêncio que orienta a distração e confusão em que estão envolvidos tecnologicamente, deixando que se expresse uma “fala” maior, mais consistente. Diria mais, é preciso que façam uma reconciliação com os livros, mantendo, num mesmo movimento, o enraizamento em uma tradição e a abertura aos demais. Nada de confusão nem de separação, muito menos de ter de escolher entre uma coisa e outra. É apenas uma questão de comportamento, interesse e escolha pelo que realmente têm relevância. Aqui vale refletir sobre a resposta do Dalai Lama quando perguntado: “Para o Senhor, qual é a melhor religião?”, e ele: “A melhor religião é aquela que torna você melhor”.

Tudo vai depender do tempo e da qualidade da atenção que ele der a si mesmo e ao conhecimento necessário à conquista da criatividade. Ele não pode apequenar a importância desse processo. A criatividade genuína caracteriza-se por uma intensidade de percepção, por um alto nível de consciência. Não pode simplesmente querer a criatividade. É preciso que use, de forma objetiva, a determinação para conseguir esse encontro com ela, intensificando a dedicação e o compromisso. Principalmente, é preciso que mergulhe intensamente em tudo que já existe e já está dado (todo conhecimento produzido pelo homem através da literatura ao longo da história) para, a partir disso tudo, reinventar o real e criar a nova forma. É preciso que evoque a competência leitora para inflamar a imaginação e alargar as fronteiras da sua consciência. É preciso mais do que vontade, é preciso ousadia, intensidade, absorção e engajamento. Mais: é preciso que se entregue completamente ao material que tem em mãos, transformando-o em algo novo.

Para isso é necessário que se criem oportunidades para que ele aprenda por compreensão, que se apresentem a ele os porquês. É preciso estimulá-lo a pensar, raciocinar, criar, relacionar idéias, a ter iniciativa e autonomia de pensamento. A partir das diversas linhas de reflexão sobre a leitura realizadas em sala de aula, é preciso estimular sua capacidade de relacionar as narrativas com a vida real. Escutemos o que diz Ricardo Azevedo, escritor e ilustrador, na matéria intitulada “Literatura para aprender”, na edição 02 da Revista Educar Transforma (2015): “A literatura é uma forma extraordinária de experimentar a realidade. Ela tem a ver com a existência humana e suas mil questões, ambigüidades, conflitos e contradições. Por meio de uma história inventada compreendemos melhor nós mesmos, os outros, a sociedade em que vivemos e a História

Pergunta: para conquistar a hoje considerada mais valiosa das capacidades profissionais, a tão falada criatividade, o jovem ficará a margem ou intervirá ativamente? Se ele ainda hesita em aceitar o desafio deve lembrar que o jogo já começou e que as apostas estão na mesa. Se quiser evitar a sua morte profissional, entre as outras tantas fontes de conhecimento à sua disposição, também deveria aceitar o convite que a literatura lhe faz: Embarque!

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O grande projeto de um homem a frente do seu tempo

Luis Arthur Hoffman

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Quem passa ao largo do Centro Cívico desde o final do mês de Outubro percebe a extensa movimentação de pessoal e de materiais pelo seu interior. Pelas placas informativas afixadas toma-se conhecimento de que o teatro encontra-se com as atividades culturais suspensas, inclusive as sessões de cinema, para a realização do projeto de reforma da cobertura e forro, que acarretará melhores condições térmicas, bem como melhorias no sistema fluvial de escoamento das águas de chuvas na rua, estando sua conclusão prevista para o mês de dezembro.

O projeto com intervenção em área de 1.158,20m² prevê a retirada do telhamento e forro existente, a colocação de novo telhamento com telhas metálicas com isolamento termo-acústico e novas calhas em aço galvanizado, a troca de fiação elétrica, finalizando com a instalação de novo forro de lã de vidro, com resistência ao fogo classe IIA e sensores de detecção de fumaça, e ao final, pintura em todas as paredes internas e nos revestimentos de madeira.

Some-se isto às melhorias já verificadas desde a assinatura de contrato de parceria com empresa privada para instalação do cinema há 5 anos atrás, tendo sido instalado de novo sistema de som, ampliado o sistema de climatização, bem como substituídas todas as poltronas na parte térrea entre 2018 e 2019, e constata-se que o teatro ressurge renovado e pronto para enfrentar, revigorado, as propostas culturais das próximas décadas, recebendo de portas abertas as novas gerações.

Para melhor entender o que significou por aqui a construção e a inauguração do Centro Cívico Municipal no período compreendido entre os anos de 1978 a 1982, foi preciso acessar a cidade daquela época se valendo do acervo textual, gráfico e fotográfico disponível, que é amplo . E isso só foi possível com a preciosa e indispensável colaboração de Anete Krebs Guimarães e Robélia Dani junto ao Museu Municipal e de Joel Faccin na Câmara de Vereadores.

Para os que não viveram a época é preciso contar que naqueles anos Santa Rosa crescia rapidamente e se destacava no cenário econômico do Estado como um dos mais dinâmicos e desenvolvidos pólos regionais do Rio Grande do Sul. Tinha então uma população estimada de 54.000 habitantes (42.000 na zona urbana e 12.000 na zona rural). A soja colocava o Município em posição relevante no país, projetando-o como um dos maiores centros latino-americanos da indústria de máquinas e equipamentos agrícolas, suprindo grande parcela do mercado nacional ao mesmo tempo em que se iniciavam as exportações.

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Tui

A HORA DO APLAUSO

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O Sexto Concerto da Série Interior realizado na noite do dia 25 de outubro marcou a volta da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre à Santa Rosa depois de cinco anos. No programa, obras de Verdi, Handel, Mozart, Grieg, Bizet e Strauss pela regência de Arthur Barbosa, que também é regente titular da Orquestra Eleazar de Carvalho, em Fortaleza, e do projeto “Terra Symphony Orchestra”, em Nova York. Como era de se esperar, uma apresentação impecável em pouco mais de uma hora de duração, iniciando com a abertura da ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi. Há de se destacar a excelência dos instrumentistas na apresentação da peça “Suíte Peer Gynt”, do célebre compositor norueguês Edvard Grieg, e da “Suíte n° 2”, da ópera Carmem, de Georges Bizet.. O concerto se encerrou em clima animado com a execução de uma das mais populares polcas vienenses de Johann Strauss II: “Tritsch-Tratsch-Polka. Há de se destacar também a participação solo do tenor brasileiro Francisco Amaral, em suas performances da ópera “Every Valley Shall Be Exalted”, de Handel, e “Dies Bildnis Ist Bezaubernd Schön”, de Mozart.

A cidade saiu engrandecida com mais esta apresentação, digna das grandes salas de concerto do país. Em se tratando de um espetáculo executado por dezenas de músicos com seus violinos, violoncelos, contrabaixo, flautas, oboés, clarinetes, trompas, trompete, trombones, percussão, necessário um grande palco. Nessa hora não há como não falar da coragem e ousadia do ex-prefeito Antonio Carlos Borges que com seu pensamento visionário projetou e construiu o Centro Cívico Cultural entre o final da década de setenta e a primeira metade dos anos oitenta, antevendo o rápido desenvolvimento da cidade e seu protagonismo cultural.

Os santarosenses que compareceram ao concerto estão de parabéns pelas lições de civilidade e educação que dedicaram aos artistas, seja pela maneira consciente com que partilharam o silêncio necessário a cada ato, na mínima agitação que viesse a atrapalhar a concentração e o trabalho dos músicos, seja no correto manejo dos aplausos.

Era um espetáculo acústico, com restrito uso de microfones, e o público portou-se de forma adequada ao espetáculo proposto, numa demonstração de respeito também à platéia, ciente de que cada gesto ou som inadequado terminaria por interferir na forma e qualidade com que a pessoa sentada à sua frente ou ao seu lado absorveria o espetáculo.

Como resultado desse equilíbrio, a OSPA acabou por despertar nos presentes uma série de reações diferenciadas. Em cada adulto concentrado em um acorde ou arranjo de notas, ou em cada jovem pouco afeito às particularidades do repertório, a satisfação era visível em cada rosto, para o lado que se olhasse, em qualquer canto do teatro.

E aqui faço um adendo para falar da minha surpresa no comportamento dos pequenos que terminaram por aplaudir de forma muito mais contundente a tudo que viram e ouviram. Era visível a surpresa, o espanto, o encantamento e a alegria com que as crianças partilhavam, quem sabe pela primeira vez em suas vidas, daquele tipo de evento, um momento único onde os adultos a sua volta não paravam de aplaudir, calorosamente, com muitos “bravos”, a emoção que sentiam. Os pequenos estavam eufóricos, sorrindo e alguns até dançando contentes.

Falando das crianças, o já mencionado ex-prefeito Antonio Carlos Borges, em seu discurso por ocasião da inauguração de um centro comunitário na Vila Beatriz no ano de 1979, de forma clara e certeira já falava do que, por analogia, agora se aplica ao que aconteceu no teatro no Centro Cívico durante o concerto da OSPA : “Queremos que todas as crianças que por aqui passarem, estudem com carinho, com atenção e com esperança, para que elas, possuídas desse sentimento, entreguem ao futuro a sua inteligência, a sua cultura e a sua energia em favor do desenvolvimento e da valorização permanente da pessoa humana”.

Substituindo ‘estudem’ por ‘ouçam / aprendam’, alguém ainda duvida da capacidade educadora das expressões culturais, aqui em especial, a música? Quantos jovens, talvez, com atenção, aprendizado e esperança, após terem vivenciado algum espetáculo no Centro Cívico, tenham feito suas escolhas profissionais na área da música?

Retornando ao espetáculo, ouso até dizer que depois do talento do regente Arthur Barbosa, a conjunção teatro lotado, orquestra impecável, acústica boa, público respeitoso fez do concerto o acontecimento musical dos últimos meses, sacudindo a mesmice e elevando a auto-estima da cidade.

A qualidade da apresentação foi decisiva para o sucesso da noite, razão pela qual o gerente do SESC, Edsom Flores de Campos, era a visível personificação da alegria ao término do espetáculo, quando no saguão do teatro recebia efusivamente os cumprimentos de todos pela decisão acertada em trazer o espetáculo. Se ao final a orquestra e todos seus integrantes foram aplaudidos calorosamente com muitos “bravos”, estes mesmos “bravos” devem ser direcionados ao SESC pela coragem de mais uma vez encarar o desafio e novamente presentear a cidade, acomodada a ritmos bem menos construídos, com a beleza, sutileza e qualidade da música clássica. Certamente os mais de seiscentos felizardos que se propuseram sair de casa para prestigiar o evento não se arrependeram.

Já o Centro Cívico, renovado pelas novas poltronas, sai revigorado depois de mais esta apresentação. Cumprimentos ao Poder Público na pessoa do Prefeito Municipal Alcides Vicini. Santa Rosa não tem do que reclamar. As vezes pode faltar platéia (coisa complicada de entender essa recusa de cultura), mas não faltam local e eventos marcados pelo conforto e pela qualidade. Todos saem ganhando.

por Tui

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