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Estampado na cédula de 3 reais – Portal Plural
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Paulo Schultz

Estampado na cédula de 3 reais

Paulo Schultz

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Poucas coisas causam tanta náusea quanto a postura hipócrita e encenada da elite brasileira, em todos os lugares do país onde ela está presente.
É uma peça de teatro permanente, uma encenação que envolve praticamente todos os aspectos da vida e das relações que se estabelecem dentro dela – elite , e dela para com o restante da população.

Os episódios desta encenação são diários.
Acontece na nossa frente, ao vivo, ou então nos chega através das redes sociais, ou de colunas sociais de alguma revista ou jornal, ou através de algum programa de televisão.

❓Lembra do vídeo que viralizou no país inteiro há poucos dias atrás❓

A primeira dama do Estado de São Paulo, esposa do governador tucano João Dória, em uma conversa solta com uma perua socialite, que supostamente foi lhe fazer uma visita para falar sobre projetos sociais da primeira-dama.
Um festival de falsidades e hipocrisia, e lá pelas tantas escapa a verdade do que elas pensam sobre as pessoas em condição de vulnerabilidade e de rua.

Outra…
❓Quem nunca ouviu gente da elite se gabando de ter doado “roupas para os pobres” em alguma campanha de arrecadação de agasalhos❓

Aquela caridade tão autêntica quanto uma nota de 3 reais, que lá pelas tantas deixa escapar ” fiz uma limpa no meu armário, e estou doando”.

❓Sabe o que está por trás dessa frase ❓
Quando a pessoa diz que fez uma “limpa no seu armário”, é porque considera que tirou do seu armário a sujeira, aquilo que não presta, que não lhe serve, e é isso que ela está oferecendo, com orgulho e com direito a foto em rede social, para aqueles que são desfavorecidos de uma condição de vida mais digna.

Isso é a elite brasileira.

Daria para citar mais inúmeros casos e situações com esta mesma característica presente de hipocrisia, falsidade, auto-promoção, desprezo, preconceito, etc., os quais ocorrem e são publicizados (ou não), ou presenciados todos os dias, sem exceção.

Mas há um outro aspecto tenebroso da elite, importante de se mencionar: o senso seletivo de certo/errado, correto/incorreto, justo/injusto, honesto/corrupto.

Uma relação que vale tanto para o mundo privado, quanto para o ambiente da coisa pública.

Algo do tipo “as falcatruas da nossa gente são aceitáveis e toleráveis, mas as dos outros são imperdoáveis e devem ser duramente punidas.

❓Quem não lembra das ruas ocupadas por pessoas da elite indignadas com “a corrupção do PT”❓

❓Por acaso se viu alguma dessas pessoas indignada com corrupção ou outra ilicitude de algum outro governo ❓

Hipocrisia na veia.

A verdade por trás dessa fajuta postura ética é o conhecido preconceito e segregação de classe, característica multissecular na cultura da sociedade do Brasil.

Nada novo, portanto.

A única diferença é que agora há redes sociais para espalhar a auto-promoção e a indignação seletiva.

No mais, é tudo pose❗

Já dizia Cazuza… “a burguesia fede”.

❗Chiquérrima ❗

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Paulo Schultz

Restos de sonhos

Paulo Schultz

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Para um povo que criou esperança e confiança de querer e poder ter vida digna, acesso à casa própria, acesso à universidade, possibilidade de viajar, colocar mais conforto em casa, se sentir respeitado e sorrir, o que restou?

Um tornado de ódio, mentiras e fundamentalismo burro varreu tudo, e jogou milhões nos escombros, para viver de restos de sonhos.

E viver os dias com a necessidade e a ausência.

Que desalento sente quem não tinha quase nada, passou a ter o digno, e foi empurrado para o quase nada de novo ?

Há no Brasil uma satisfação perversa de um minoritário punhado de gente em submeter a grande maioria à dificuldade e à aspereza da carência.

A aspereza dolorida que vem expressa no olho de alguém que pede troco na porta do supermercado ou do restaurante.

Que contrasta com a perversidade fria de quem nem se digna a olhar para quem faz o pedido, e responder.

Tem horas que o silêncio é uma navalha.

O Brasil depois da pandemia, e com a continuidade do rumo do não-governo federal, do capitão Messias, será uma vastidão de ausências e carências.

E os municípios, que são os espaços onde todas as mazelas deságuam, terão que dar conta disso.

Por isso, é imperativo que os novos governos locais sejam governos populares, voltados para a maioria, especialmente para quem mais precisa.

Daí a tarefa obrigatória de estabelecer vitórias populares logo ali na frente, nas eleições de novembro.

Porque, de 2021 em diante, a grande obra será juntar os restos de sonhos e transformá-los em dignidade e cidadania.

Ao trabalho.
Prá voltar a sorrir.

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Paulo Schultz

❓A que horas vai tocar o despertador ❓

Paulo Schultz

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Enquanto os concorrentes se atrapalham, cometem erros imbecis e batem cabeça, Dick Vigarista lidera a corrida, usando a trapaça e a esperteza, que são suas características.

Já viu esse desenho animado ?
Se chama “Corrida maluca”.

Se não lembra, ou não conhece, basta procurar no YouTube.

Mas, se não quiser, pode olhar para a vida real, pro Brasil de 2020.

Na chefia do governo, temos o Dick Vigarista brasileiro – o capitão Messias.

Com sua equipe e seu arsenal de ideias anarcocapitalistas, e apesar de todos os péssimos índices econômicos e sociais, o capitão vai liderando a” corrida” – principalmente porque está impondo sua narrativa.

Está sendo assim,entre outras coisas, com a narrativa da pandemia.

Porém, meu foco, neste texto, não é este, mas em função deste.

Falando em narrativa e foco de discurso: é impressionante o quanto a esquerda, quase que como um todo, se atrapalha, bate cabeça, não acerta o foco e faz análise errada dos fatos.

! Papo reto !

Bolsonaro nunca quis, e não quer, dar nenhum golpe. Não quer fechar o congresso, não quer fechar o STF, não quer estabelecer uma ditadura.( Isso é só discurso prá manter o rebanho inflamado).

Ele quer é fragilizar estas, e outras instituições da República, para tê-las ao seu controle, para que possa implementar seu projeto de país.

Bolsonaro não tem um governo fascista, embora ele pessoalmente possa ter algumas características similares.

Ele não quer atentar contra a democracia, pois foi dentro do período democrático que ele se elegeu oito vezes – 7 como deputado federal e uma como presidente.

O que ele tem é uma concepção de país, de sociedade e de democracia, que são anárquicas.

E anárquicas no sentido de uma sociedade onde o Estado se ausenta da mediação e da proteção das pessoas e da vida de uma forma geral, e onde a lei do mais forte se impõe através da força não necessariamente física, e das armas.

Tá na hora de acordar !

Tá na hora de parar de ficar esperando por um golpe que não vai vir, se ocupando com teses e discursos sobre um suposto golpe se armando, fazendo discursos de que a democracia está ameaçada, gritando e fazendo faixas reais e virtuais dizendo que “os fascistas não passarão”.

Porque enquanto se perde tempo com esse foco errado, literalmente a boiada passa, e o projeto de Bolsonaro avança.

Avança de fato nas políticas implementadas pelo seu governo, e avança ganhando a narrativa junto à população.

Quer ver um erro grotesco: Bolsonaro queria dar um auxílio emergencial de apenas R$ 200.

Por articulação e movimentação da esquerda no Congresso, esse valor foi aumentado para R$ 600, com o governo tendo que ceder em sua intenção inicial.

Pois quem ganhou politicamente a narrativa com o auxílio de R$ 600 não foi a esquerda, foi Bolsonaro, que soube faturar e chamar pra si o mérito de uma coisa que não era sua.

E a esquerda não soube se comunicar com a população durante todo esse período.

Tá na hora de parar de bater cabeça.

Tá na hora de acertar na análise dos fatos.

Tá na hora de propor um projeto de país que se contraponha na prática com o que está sendo implementado pelo governo Bolsonaro.

Tá na hora de dialogar direto com a população, de maneira efetiva e inteligível.

Dialogar sobre a fome, sobre a crise econômica, sobre a alta dos preços dos alimentos, sobre o desemprego, sobre a informalidade, sobre a precarização do trabalho, etc.

Estes são os temas que tocam a vida das pessoas – os temas que doem nos ossos.

Porque enquanto ficamos discursando numa nuvem, essa população fica toda a mercê de uma narrativa bolsonarista que vai se espraiando e se tornando majoritária.

Tá na hora de acordar, e começar a trabalhar – temos eleições municipais ali na frente.

Vamos colocar o despertador prá tocar, sair do mundo dos sonhos, e colocar o pé no trabalho, de maneira acertada, precisa e com a narrativa que de fato precisa ser feita.

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Paulo Schultz

Exaustão, ódio, desalento e a inadiável luta

Paulo Schultz

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Madrugada.
Rolando a tela pelo Facebook, encontro um vídeo – uma gaita que emana uma canção melancólica, tocada por uma jovem.
Trabalha em um hospital. Está vestida com roupa de trabalho, provavelmente em horário de descanso. E nesse tempo, sentada sozinha em um quarto, aparentando cansaço, toca gaita ponto baixinho e reflexivamente.
Notas suaves, melodia triste.

Nas notícias do dia, o preço impeditivo dos alimentos básicos, como arroz e feijão, dificultando a vida de milhões de brasileiros. Lembra a carestia, a fome – condição crônica do Brasil das décadas de 80 e 90.
As mortes pela pandemia vão gradativamente se “naturalizando” na cabeça da população, e se aproximam de 130 mil brasileiros até aqui.

Bolsonaro e seu governo propõem uma reforma administrativa que arrebenta com o serviço público.

Os incêndios criminosos na Amazônia aumentam, com a cumplicidade omissa do governo federal.

O Brasil de 2020 é um país exausto.

É consequência de uma crise social, política e econômica que vem se agudizando desde o início de 2015.

E que agregou um elemento destruidor – o ódio.

Há um contingente de milhões de brasileiros que empobreceu, se enbruteceu, se enraiveceu, se entristeceu.

Mesmo quem hoje se acha empoderado, porque seu “Messias” está no poder central do país, não demonstra alegria – demonstra raiva e ódio – fundamentalista e ignorante, por sinal.

O país, entre outras coisas, tem parte considerável de seu povo triste,
desesperançoso.

Lembra que há cerca de 10 anos éramos um dos países com população mais feliz, orgulhosa e confiante no seu futuro ?
Revistas de circulação nacional estampavam isso em suas capas.

O Brasil de agora tem 40 milhões vivendo de bico, na informalidade.

Tem cerca de 13 milhões de desempregados.

A pobreza extrema avança.

Milhões tem no auxílio emergencial sua maior renda- ou única – no mês.

O Brasil de 2020 carrega sintomas brutos e crônicos de preconceito e desigualdade, agravados pela política diária de fomento ao ódio.

É necessário desatar esse quadro,sob pena de rumarmos para a desagregação e a barbárie social (um quadro de anomia que interessa a poucos).

Tarefa dura, mas necessária.

Começa nas relações humanas, que requerem solidariedade com quem está vulnerável.

Passa pelos municípios, onde tudo acontece e aflora, e onde a esteira de fundamentalismo e ódio precisa ser travada por governos locais comprometidos com a cidadania e desenvolvimento distribuidor de renda.

Já disse outras vezes – o bolsonarismo é um sintoma de uma sociedade adoecida.

Ele não é todo o problema – mas ele agrava o quadro, porque enbrutece, desumaniza, desorganiza e seduz para o ódio destrutivo.

É isso que precisamos enfrentar.

Nos versos de uma canção…
” A vida não tá fácil, não
É muito prato prá pouco feijão
É muito ódio no coração..
Mas sei,
Que tudo pode ser melhor
A gente vai desatar o nó,
A gente vai voltar a sorrir”

À boa e inadiável luta.

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