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Caiu a capa do personagem – Portal Plural
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Paulo Schultz

Caiu a capa do personagem

Paulo Schultz

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Bolsonaro montou um personagem para si, e durante anos foi cultivando esse personagem, com uma narrativa precisa e repetida exaustivamente, a qual foi ganhando adeptos numa quantidade que, hoje, expressa cerca de 20% do país.

O personagem era o cara anti-sistema e anticorrupção*

Com esses dois carimbos, Bolsonaro fez do seu personagem um “mito” para uma horda de ignorantes e imbecis, hipnotizados e vorazes na defesa desse mito e das suas ideias torpes.

A estupidez dessa gente toda não lhes permitia ver o óbvio:
? qual era a lógica de alguém se dizer anti-sistema e ao mesmo tempo ser, por 28 longos e improdutivos anos, deputado federal?

E ainda: quando o volume da turma bolsonarista tomou proporção, pessoas tiraram tempo para pesquisar quem era essa figura, até então exótica, e como atuava em seus mandatos.

Nessa época, surgem informações, confirmadas e verdadeiras, de que Bolsonaro, cometia irregularidades no exercício de seus mandatos, notadamente através do uso de assessores fantasma – gente que era lotada no gabinete do então deputado, mas que de fato não trabalhava para o mesmo, e muito provavelmente, seria somente *laranjas para que Bolsonaro, na época, fizesse seu caixa 2 usando dinheiro público.

Bom, a horda bolsonarista não quis ver isso.
Preferiu continuar na ilusão de que ali estava seu líder, o iluminado, o salvador do país, o anti-sistema, o anticorrupção.

Acontece então em 2018, por uma série de fatores e circunstâncias, as quais não cabe detalhar aqui, que Bolsonaro se elege presidente do país.

Era o êxtase da horda.

O governo se instala, as coisas vão se desencadeando dentro do caos que Bolsonaro se propôs a criar para governar (na verdade, ele não governa – ele terceiriza, e fica livre para produzir seus conflitos diários e intermináveis, que é o seu modo de vender sua concepção torta de sociedade)

Mas as coisas não saíram bem como o capitão Messias queria.
❗E aí deu problema❗

Dos problemas que foram se avolumando, especialmente demolidores são os que envolvem seus filhos e seus crimes, assim como a falta de base política no Congresso.

E aí Bolsonaro se obriga a fazer movimentos.

E estes fizeram cair a capa do personagem que ele montou.

O personagem anti- sistema foi recorrer ao sistema da velha política, com a qual ele dizia que queria romper, articulando com a fina flor da pilantragem (Roberto Jefferson e Costa Neto) apoio do centrão ao seu governo, em troca de centenas de cargos.

Então o cara que se dizia anti-sistema, foi recorrer ao que há de mais podre no sistema* para se safar da possibilidade de vingar contra si um processo de impeachment, e, ao mesmo tempo,tentar governar com um mínimo de base no Congresso.

Caiu então uma parte da capa do personagem.

O todo da capa do personagem que Bolsonaro montou caiu pela declaração de Sérgio Moro.

O até então incorruptível mito, revelou-se corrupto quando tenta interferir nas ações e investigações da polícia federal com o fim primeiro de proteger seus filhos.

Flávio Bolsonaro, envolvido em esquema de rachadinhas* em seu mandato como deputado estadual ( caixa 2 com dinheiro público, gerenciado pelo Queiroz – lembra dele?).

Carlos Bolsonaro, com as milícias digitais.. o famoso gabinete do ódio, propulsor e disseminador de mentiras e ataques, e aqui especificamente pesam ataques ao Congresso e ao STF.

As ações da PF estão chegando nos calcanhares dos filhos do Messias.
E aí mexe com os esquemas da família.

E aí Bolsonaro mostra quem é – um político profissional há 30 anos, parte do sistema da velha política e corrupto junto com ela.*

❗Não há mais personagem para esconder isso❗

Caiu tua capa, Messias.

Não tem mais personagem.

É isso.
Sobra o ódio, a intolerância, a tosquice, a vontade de destruir, as concepções perversas.

Mas o cara anti-sistema e anticorrupção, esse não existe mais.

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Paulo Schultz

Papo reto…com espinhos

Paulo Schultz

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Fechadas as eleições de 2020, não quero me ater ao balanço do que já é conhecido.

Que o bolsonarismo se esfarinhou e voltou ao seu tamanho de gueto.

Que o centrão e a velha direita saíram vitoriosos.

Que a esquerda teve algumas retrações, mas se mostrou numérica e qualitativamente forte e resiliente, com o germinar e a consolidação de novos quadros e lideranças, tendo sido eles vitoriosos ou não em suas disputas.

Isso está posto.

Meu olhar está no fato de que uma das leituras do resultado deste processo eleitoral, para o conjunto da esquerda brasileira, é que o germinar e a consolidação de novos quadros e lideranças, e seus respectivos espaços políticos, estão alicerçados em algo bem claro: um discurso e uma narrativa consistentes, com conteúdo, focados na esperança, na dignidade e na cidadania, e no deixar de lado o discurso da concertação social.

Venceu, dentro da esquerda, quem foi claro incisivo, e não temeroso.

Venceu quem soube dizer, sem medo, que há sim uma disputa de classes, em cada município, e no país como um todo.

Venceu quem soube dizer com firmeza que o fosso social, que as diferenças sociais, que a ausência de cidadania, e a carência de milhões não se resolvem com concertação paliativa.

Venceu quem foi visceral ao tocar em problemas e suas responsabilidades, sem medo de ferir setores de cima da sociedade, nem de melindrar fundamentalistas.

Venceu quem soube captar que o mundo do trabalho mudou após a reforma trabalhista feita no governo Temer, e que o discurso para os milhões de trabalhadores desse novo e vampiresco mundo do trabalho, é o discurso que eles existem, são cidadãos, e devem ter suas profissões colocadas dentro de um enquadramento de proteção social e amparo legal humano.

Venceu, na esquerda, quem soube captar e dizer que o povo da periferia não deve ficar embretado entre as milícias e a vigarice ordinária do fundamentalismo religioso.

Venceu,na esquerda, quem soube aliar um sentimento de esperança à uma fala vigorosa.

Quem soube dizer que é preciso ousadia e coragem, e que,se for preciso, se deve enfrentar setores da sociedade, em nome da defesa da maioria, daqueles que são relegados ou normalmente tratados com migalhas.

Venceu quem disse que é necessário inverter prioridades, e que o crescimento econômico deve ser desconcentrado e possibilitado a todos os setores.

Por fim, venceu, pela esquerda, sendo vitorioso ou não na eleição em si, quem foi genuinamente esquerda.

Semeando esperança, coragem e ousadia, e afirmando que é possível, e que essa possibilidade requer a verdade e algum enfrentamento, sem passar pano prá ninguém.

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Paulo Schultz

Voltam os atores principais

Paulo Schultz

Publicado

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O retrato político do país, mesmo sem os resultados do 2o turno, é claro.

Volta a se postar no cenário a dualidade centro -direita x esquerda.

Numericamente a centro-direita levou vantagem, mas o conjunto da esquerda, teve no primeiro turno, e terá no segundo, vitórias encorpadas e importantes.

Há o vigor obtido pelo PSOL, a resiliência forte do PT, e a presença sempre importante do PC do B e outros da esquerda do país.

Há que se considerar também o germinar de novos quadros dentro da esquerda, candidaturas vitoriosas vindas da periferia, das minorias, da juventude, das mulheres.

Do lado da centro-direita, que parece ter retomado o espaço político perdido em 2018, vemos a emergência numérica de velhos partidos de direita clássica (PP, Dem) e do fisiológico centrão.

Um misto de raposas antigas, com filhotes novos da mesma espécie.

Este cenário posto remete à uma conclusão:
Sai da cena principal a extrema-direita, o bolsonarismo.

Que saiu minguadíssimo das urnas, o que aponta para o retorno ao seu tamanho de gueto.

Dada esta condição, somada a inaptidão e falta de habilidade para governar e dar conta da complexidade econômica e social do país, bem como a crise que se projeta para 2021, temos um indicativo que o fenômeno bizarro e destrutivo chamado Bolsonaro será uma andorinha de um verão só.
Para o bem da nação, afirmo.

Evidentemente trata-se de um indicativo.
Mas é o rumo apontado pelos resultados.

Aquele que sempre foi coadjuvante, e por uma circunstância infeliz foi alçado ao cenário principal, deve voltar ao seu papel de figurante.

E voltam os atores principais.

Primeiro, voltam dentro da realidade dos municípios, nas disputas locais de políticas públicas e na implementação de linhas ideológicas de governo bem distintas.

Segundo, se aponta para uma disputa, no horizonte, de projeto de país.

De um lado, subserviência ao poder econômico e ao capital, e migalhas conformadoras para o aspecto social.

De outro, um projeto de país soberano, com forte indução de crescimento social e construção de cidadania.

Foi o quadro que se firmou no cenário do país nas últimas décadas, não de maneira artificial, mas de maneira enraizada, social e politicamente.

Cenário apontado, atores principais a postos.

Vamos ao embate, que começa no plano local e desemboca no nacional.

Parece que a vida real da política do país está retornando.

Com direito à elencos parcialmente renovados, mesclados aos mais experientes.

Ao trabalho, cada qual com suas perspectivas.

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Paulo Schultz

A novidade é o velho voltando

Paulo Schultz

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A velha direita clássica representada no PP, no Dem, e os partidos do pragmático “centrão” foram os grandes vencedores das eleições municipais esse ano no Brasil.

O mapa das votações dos partidos, das prefeituras conquistadas, do número de cadeiras conquistadas em câmaras de Vereadores, aponta claramente isso.

O bolsonarismo minguou.
Parece ter voltado ao seu tamanho de gueto.
E há várias razões para isso.

Uma delas é a incapacidade de formulação de propostas e de fazer política do bolsonarismo raiz.

É notório que a quase totalidade dos bolsonaristas raiz tem um vocabulário menor do que o vocabulário de um papagaio bem treinado.

E aí fica difícil fazer política e formular propostas.
Sobre o bolsonarismo e seu resultado raquítico nessa eleição de 2020, é isso.

Por outro lado, é preciso também considerar uma retração em números da esquerda.
E aqui cabe frisar, que esta retração em números é relativa, pois há que se contar a presença da esquerda em dezenas de disputas no segundo turno, em capitais(como São Paulo) e outras cidades de porte médio e importantes do país.

Mais: se no primeiro turno houve uma retração numérica da esquerda, há também que se considerar uma importante e promissora renovação de quadros, a partir da eleição de muitas figuras políticas novas da esquerda, com muita força para a eleição de muitos candidatos e candidatas vindos das periferias, além de oriundos de minorias.

Há um germinar dentro da esquerda, como um todo.
O que, de forma simbólica e na prática, significa fôlego, resistência, capacidade de renovação e crescimento consistente.

Como diz Lulu Santos, ” a vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito”.

Ou seja, em ciclos longos ou curtos, ondas políticas de direita, de centro, de esquerda, de extrema direita, se revezam dentro da sociedade.

O país saiu de um ciclo extenso de esquerda, que terminou de maneira forçadamente interrompida, para entrar num período de transição neoliberal, e, em seguida, em um período de extrema direita, inconsequente e incapaz, que, me parece, será um período único, sem repetição.

E chegamos a este ano de 2020, com a velha direita e o velho centrão ganhando terreno dentro da sociedade brasileira.

Ainda precisa de tempo para ter todos os fatores que compuseram a vitória deste grupo político de centro-direita.

É preciso passar ainda pelo segundo turno, e é preciso, sobretudo, fazer análises locais, e ao mesmo tempo nacionais, dos fatores que levaram a este resultado político no país.

Os próximos dias e semanas, juntamente com a reflexão necessária, nos darão estas respostas.

Mas no início dessa reflexão, deve-se começar com perguntas e observações:

Por quê a maioria do eleitor brasileiro optou pela velha direita clássica, e pelo fortalecimento da força política do centrão ?

Considerando que estas forças políticas são pragmáticas e, ao mesmo tempo, aliadas, submissas e servidoras do poder econômico, e dos interesses mais espúrios e nojentos deste.

Que debilidade social e financeira, que fragilidade de consciência, levou a maioria do eleitorado brasileiro a optar por quem faz campanhas e conquista vitórias eleitorais alicerçado na coação, na pressão, na compra de voto com dimheiro vivo ou de maneira indireta, e na trapaça sob as mais variadas formas?

Que guinada fez parte majoritária da população trazer o velho de volta, como se novidade fosse?

São perguntas de fundo, são observações iniciais, que devem abrir o processo de reflexão para entender o resultado político destas eleições municipais de 2020.

O fato é que teremos, em milhares de municípios e de câmaras de vereadores, pelo país afora, a velha maneira da velha direita e do velho centrão predominando.

E o resultado disso, para a grande maioria da população, não será bom, inevitavelmente.

Quando um ciclo novo vem, trazendo o velho de volta, temos uma espécie de retorno de algo que nunca colocou o país em um bom rumo.

Será que vale a pena tomar remédio ruim de novo?

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