A radiografia do monstro – Portal Plural
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Paulo Schultz

A radiografia do monstro

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O governo Bolsonaro.

Essa experiência bizarra e inédita na história política e social do país precisa ser compreendida.

Até para que não se repita.

Bolsonaro,hoje, é o expoente mundial da extrema-direita, depois que Trump foi derrotado no ano passado.

O Brasil virou um imenso laboratório social de uma plataforma ideológica inédita aqui.

Teorias e concepções, esquizóides ou não, vindas de figuras como Steve Bannon, Olavo de Carvalho, somaram-se à concepção torta e anárquica de sociedade do próprio Bolsonaro.

O resultado é o quadro atual que estamos ainda vivendo – uma degradação progressiva do país, com aumento acelerado da pobreza, da miséria, da concentração de riqueza, e o estremecimento dos pilares da República, como cupins corroendo uma madeira por dentro.

Uma questão profunda, que não se esgota em um só momento.

Vamos a um primeiro….

Mais de 6.000 militares ocupam cargos políticos no governo Bolsonaro – entre eles estão 9 ministros, neste momento.

Uma dúvida: Os militares se utilizaram de Bolsonaro para ascender e exercer um projeto de poder, ou Bolsonaro se ultilizou dos militares para exercer o seu ?

Independente de qual hipótese seja a mais correta, Bolsonaro, militar que foi, sabe bem que uma parcela dos militares tem uma devoção cardíaca por regalias e bolsos cheios por conta de salários gordos.

Sendo assim, ele soube como conquistar o coração sedento por regalias e rendimentos dessa porção das forças armadas.

Colocar toda essa gente de volta aos seus quartéis vai dar trabalho.

No campo ideológico, dentro da plataforma anarcocapitalista de sociedade que Bolsonaro quer implantar, desde o início do governo até agora já foram lançados mais de 30 atos normativos para alterar a política de acesso e uso de armas no país.

Intuito claro: facilitar uso e posse de armas, ampliar permissão individual de quantidade de armas e munição.

Uma gigantesca possibilidade de, perigosa meticulosamente, alimentar milícias de âmbito local, mas com orientação nacional.

Na área do meio ambiente, já.foram lançados, segundo levantamento, 1.112 atos do governo federal, voltados à alteração de leis ambientais, para facilitar a exploração predatória e destrutiva de recursos naturais.

Madeireiros, garimpeiros, fazendeiros do agronegócio estão faceiros como nunca.

Bolsonaro lhes dá um campo aberto para agir, com violência e armas inclusive.

Vista grossa e estímulo – é a lei do mais forte, tornada princípio de governo.

Quanto aos povos indígenas, e populações vulneráveis atingidas nestas áreas, Bolsonaro já falava antes: ” as minorias que se adecuem, ou desapareçam” – ele gosta de sociedade de faroeste, e nunca escondeu isso.

Na área das políticas sociais, uma terra arrasada.

À frente da pasta, uma figura nitidamente bizarra, prá não dizer mais.

E em postos chave da área também.

Foram destruídas, deturpadas, extintas, ou quase zeradas de recursos, políticas públicas em relação a mulheres, negros, minorias, vulneráveis, etc.

Tudo aquilo que existia antes, e é contrário ao viés fundamentalista evangélico, foi duramente atingido.

Aliás, essa turma fundamentalista, neste campo do desenvolvimento social, deve ser objeto de estudo.

Eles conseguem enxergar imagens e representações de pintos masculinos em tudo, inclusive em portas, paredes e obras de arte.

Freud teria um serviço interminável analisando esta gente.

No campo do trabalho, um aprofundamento daquilo que foi começado no período de Temer.

Desregulamentação do trabalho, retirando a proteção ao trabalhador, decepando seus direitos, e fazendo com que no país se tenha uma massa de milhões trabalhando em regime precário, sem nenhum tipo de proteção e amparo, sujeitos a uma carga brutal de trabalho diário e mal remunerado.

Tem mais…muito mais..

Como mencionei, o assunto é extenso e profundo.

Vamos por partes.

A vida tá dura, mas ela segue.

Isso tudo vai passar.

Mas a
gente vai precisar se envolver para isso acontecer.

Com coragem.

O momento exige coragem.

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Paulo Schultz

Ah….esses tucanos

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Os tucanos do PSDB decidirão, em poucas semanas, quem, da sua segunda geração de quadros políticos, Eduardo Leite ou João Dória, será o seu candidato a presidente em 2022.

Até aí tudo normal.

Tudo dentro do direito legítimo do maior partido da direita liberal brasileira de colocar o seu candidato para disputar a eleição presidencial do ano que vem.

A questão principal não é quem dos dois será o candidato.

A questão de fundo é outra.

A segunda geração de tucanos, representada pelas figuras de Leite e Dória, guarda uma diferença em relação à geração original e primeira dos tucanos – enquanto aqueles ainda tinham uma veia social-democrata, estes tem uma linha pura neoliberal.

Tanto Dória, quanto Eduardo Leite, tem em seus discursos e suas práticas de governo uma linha mestra de aplicação pura e fria do receituário neoliberal.

E sendo assim ambos, e
considerando o quadro de ruína econômica e social – principalmente social – do país que passou por dois anos e pouco de governo de Temer, e passará por quatro anos de governo de Bolsonaro, a pergunta que se coloca de cara é: seja um ou seja outro, o que de diferente eles têm a propor para o país, especialmente para os milhões de brasileiros que tem vivido em dificuldade e carência, maior ou menor ?

O que de diferente o PSDB tem a propor, já que foi, e é, parte ativa e corresponsável do quadro de ruína econômica e social que o país vem amargando de 2016 para cá?

Corresponsável sim, porque o PSDB participou do governo de Michel Temer.

Corresponsável, porque a quase totalidade dos projetos do governo Bolsonaro teve votos favoráveis dos deputados e senadores tucanos no Congresso Nacional.

Considerando essa participação e esse grau de corresponsabilidade na situação atual do país, e o perfil dos pré-candidatos tucanos, não há nada que os tucanos tenham a propor, que já não o tenham feito, com consequências ruins para a maioria da população do país.

Tanto Dória quanto Eduardo Leite brilham seus olhos para falar de reforma administrativa, realizar privatizações de empresas públicas estratégicas, e promover ajustes fiscais, independente do sacrifício de políticas públicas de cunho social, ou de desconcentração de riqueza.

Isso é o que faz ambos atingirem o Nirvana da sua satisfação política.

Na mesma intensidade desse gosto, vem a ausência de atenção e foco de ambos, no que diz respeito ao preço dos alimentos, ao preço dos combustíveis, às altas taxas de desemprego e informalidade, às demandas da agricultura familiar, à condição de queda de investimentos na educação pública, e assim por diante.

Quer dizer o seguinte:

O que faz João Dória e Eduardo Leite virarem os olhinhos de alegria e satisfação é aquilo que agrada ao mercado financeiro e os grandes detentores do capital.

Mas aquilo que diz respeito à vida da dona Joana que mora na periferia, ao Seu José que mora na favela, ou ao seu Raimundo que tem sua terrinha no interior (onde produz alimentos, e não commodities), isso não interessa em absolutamente nada a nenhum desses pré candidatos tucanos.

Ou seja: para a dona Joana, para o seu José, e para o seu Raimundo, Dória e Leite não têm nada que lhes interesse.

Nenhum deles está interessado em ajuste fiscal, reforma administrativa ou privatizações.

O negócio deles é trabalho, comida a preço acessível na mesa, filhos podendo ter a possibilidade de estudar, botijão de gás a preço justo, programas que ajudem a produção de alimentos da agricultura familiar, etc.

E para isso, nem Leite, nem Dória, têm palavra alguma que valha mais do que a prática de seus atuais governos.

É na prática do governo do Estado do Rio Grande do Sul e do governo do Estado de São Paulo, que as populações desses estados, bem como do restante do país, podem ver nitidamente o que importa e para quem eles governam, e com que objetivos.

Querer ser terceira via, querer ser novidade, quando na verdade os tucanos apenas são uma versão mais polida e dissimulada do mesmo projeto econômico que já está acontecendo no país com Bolsonaro – isso não vende, isso não cola, caros moços tucanos.

O que vocês têm para vender não é o que a maioria da população brasileira quer comprar.

Vocês não sabem nada da vida de quem sofre, da vida de quem tem ausência, da vida de quem tem carência, da vida de quem tem sua cidadania negada.

O mundo de sapatênis onde vocês pisam é outro.

Quando vocês aprenderem alguma coisa que sirva para a maioria dos brasileiros, quem sabe vocês consigam crescer.

Por enquanto, são apenas tucanos requintados e polidos, fiéis executores daquilo que o Deus mercado quer.

De resto, da vida dura do povo vocês não sabem nada.

Já dizia Lupicínio Rodrigues….

” Esses moços…pobres moços..
Ah! Se soubessem o que eu sei..
Não amavam, não passavam,
Aquilo que eu já passei….”.

Vida que segue, tucaninhos.

Nosso caminho é outro.

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Paulo Schultz

Apesar dos castigos

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Apesar de tudo que o país, e, em especial, a grande maioria do povo brasileiro tem sofrido, desde 2016 para cá, nós resistimos.

Apesar da fome, apesar do desemprego, apesar da precariedade, apesar da dureza, da aspereza, da morte, e da mão fria e invisível do mercado e seus operadores políticos, nós vamos resistir.

E nós não vamos só resistir – nós vamos enfrentar.

E nós não vamos só enfrentar – nós vamos impor uma derrota de projeto, uma outra construção de país- e dessa vez, espero, sem concertação.

Porque não deve haver concertação com quem não merece.

Há uma conta em aberto – e essa conta não é monetária.

É uma conta que diz respeito à dignidade, que diz respeito à cidadania, e que diz respeito, sobretudo, ao respeito à todas as formas de vida e de relação humana.

E essa conta nos é muito cara.

Porque quem produziu toda essa conta, vai ter que assistir quietinho ela ser zerada.

Sem concertação e sem arrego.

Depois do arranjo forjado da deposição de Dilma, e da instalação rápida de um processo destrutivo para muitos, e enriquecedor para poucos, tivemos que suportar mais.

Tivemos que ver se instalar um tempo sombrio, de mais destruição, de maneira mais bárbara, e não civilizada.

O espetáculo anarco comandado por um espantalho da morte.

E nesse tempo todo fomos vendo somente sofrimento e ausência para muitos.

E uma bonança inaceitável para muito poucos.

Esse tempo precisa, e vai acabar.

O Brasil há de renascer.

Vamos vencer o espantalho da morte.

E resgatar a cidadania de milhões.

Uma construção que não será fácil.

Mas que, justamente por não ser fácil, nos estimula a fazê-la.

Com todas as forças sociais protagonistas dessa resistência e da posterior reconstrução, e também com aquelas que porventura se derem conta de que aquele caminho tomado lá em 2016, e carimbado em 2018, é um caminho absolutamente errado, um caminho danoso, causador do que pode haver de pior.

O fato é que a gente cansou, não de resistir, mas de ver isso tudo.

Sabe aquela coisa…” a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão, arte e, sobretudo, viver.”

Então… é isso.

Estamos por aí, querendo resistir, enfrentar, e começar um novo tempo.

Apesar dos castigos.. faremos, com firmeza.

Vida que segue.

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Paulo Schultz

Um paraíso infernal

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Ele prometeu. E cumpriu.

Quando o capitão Messias disse que,se vencesse as eleições, traria a liberdade,ele não estava mentindo – em parte.
Porque ele trouxe a liberdade.

Ele trouxe liberdade para o agronegócio fazer chover agrotóxicos à vontade sobre suas imensas áreas.

Ele trouxe liberdade para o agronegócio desmatar, queimar e avançar sobre áreas protegidas, com a complacência ou a omissão dos órgãos que deveriam coibir isso.

Ele deu liberdade para o agronegócio se armar de maneira ostensiva, e liberdade para usar esse armamento na defesa de seus interesses.

Armas acima de tudo, bala para cima de quase todos.

Também no quesito armamento, ele deu toda a liberdade que lhe foi possível dar até aqui.

Liberou quantidades e tipos de armas e liberou munição.

Liberdade, portanto, para milícias, e para os famosos “cidadãos de bem”, que podem andar armados e usar esse armamento na defesa de sua “liberdade”.

Uma liberdade individual que se sobrepõe a qualquer responsabilidade coletiva, e que se sobrepõe a qualquer regulamentação e mediação do Estado para proteger e preservar a vida humana e as relações entre as pessoas.

O capitão também deu liberdade para garimpeiros avançarem em atividades ilegais, inclusive dentro de áreas protegidas e áreas indígenas.

Em relação à áreas indígenas e quilombolas, o governo Bolsonaro estabeleceu uma política de fechar o olho e veladamente estabelecer o vale tudo.

Nestas áreas, conforme a liberdade prometida, é possível invadir, desmatar, queimar, explorar, ameaçar e matar.

Uma liberdade infernal.

Também há o estímulo à liberdade de comunicação e expressão.

E não importa que seja liberdade para ofender e ameaçar de morte, ou incitar fechamento de instituições pilares da República – como Congresso e STF.

Sobretudo o estímulo à liberdade para mentir de forma sequencial e difundir estas mentiras de maneira solta, sem qualquer regulamentação legal.

É mentira acima de tudo, e fake news prá cima de todos, para tentar convencer a muitos.

Liberdade para a política de preços dos combustíveis, executada pelo governo federal, que, ao estabelecer que a política de preços se guie pelo mercado internacional, faz com que o litro da gasolina esteja na faixa de R$ 7, e o litro do óleo diesel na casa dos R$ 5 .

O que automaticamente gera liberdade para aumento de custos, aumento de preços de maneira generalizada ( sobretudo de alimentos ), aumento de custo de vida, e, claro, ocasionando empobrecimento e miséria de milhões.

Liberdade também para o avanço das igrejas evangélicas prá cima da população mais vulnerável e fragilizada.

É fé fundamentalista e monetária prá cima de quase todos.

O Brasil está tendo a liberdade prometida por Bolsonaro, portanto.

Uma liberdade anárquica e violenta.

Sem mediação do Estado, e na base da lei do mais forte.

Quem tem o poder econômico e quem tem o poder das armas tem liberdade ampla.

Para os demais, como o próprio Bolsonaro diz, que “se adequem”.

Ele prometeu. E cumpriu.

Liberdade posta.

Um paraíso.

O paraíso de Bolsonaro e seus apoiadores – um paraíso infernal.

É como diz aquele meme..

“Queima, Jeová, queima ! ”

Infernal, não é mesmo ?

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